quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

De graça, até injeção na testa

Se eu soubesse que minha vida seria assim, talvez eu nunca tivesse parado pra nascer. Foi uma coisa meio de repente que cresceu, como uma bola de neve. Se eu soubesse tudo o que ia encarar, teria pensado pelo menos uma vez, duas vezes, antes de aceitar. Essa proposta é indecente. Uma vida. Tudo o que ela dá, ela tira. Você nasce bonito, fofo e pronto pra aprender. Mas, no momento que você cresce, fica mais bonito, sensual e atrai olhares indiscriminados. A idade vem e você vai ficando sexy. A experiência torna cada relação mais forte e pessoal. Chega um ponto que você fica expert em driblar bolas. Mas, chega também o ponto em que você começa a esquecer. A memória recente se vai como se nunca tivesse vindo. A memória antiga passa a ser a recente, como se você nunca tivesse saído dos seus anos dourados. Seus amigos, que você tanto prezava, já estão mortos. Você os procura, incessantemente, sem saber para onde se foram. É uma surpresa maior ainda quando você encontra os que estão vivos, mas não se reconhecem porque ambos são recentes demais. Mas, eu nem falei da aparência. Quando chega nesse ponto, onde a memória é um simples sopro de vitalidade, a aparência já não importa mais. Todas as fibras do corpo perdem o vigor. Elas passam a ser meras tiras de couro por todo o corpo. Então, invariavelmente, tudo cai. Os peitos, o excesso de pele nos braços, a barriga etc. Tudo passa a ter uma consistência diferente, mole. Os cabelos, antes cheios de cor e volume, passam a ser um gasto desnecessário de energia. Seu corpo abandona, na esperança que dure um pouco mais. O que ele não percebe é que nada mais importa. O corpo não perdura e a mente dedura. A morte iminente se aproxima, devagar e suave. Quando você sabe que vai morrer quer duas coisas. Quer que se lembrem de você com carinho, mas também deseja que não lamentem sua vida; você viveu bem. Foi com simplicidade e seriedade que passou os seus dias. Ninguém sabe o que vem depois. Essa é a grande curiosidade dos idosos. Já passaram por tantos meandros que conhecem a existência como a palma das próprias mãos. Sendo assim, só têm mais um caminho a percorrer: a última jornada. O santo sepulcro para todas as almas: o pós-vida. É, se eu soubesse que ia ter que passar por tudo isso, talvez eu não tivesse aceitado. Felizmente, a vida é uma surpresa tão grande que me diverte saber que tudo vem de bom grado. A experiência nos ensina a aceitar tudo o que vem de mau gosto. Não podemos negar nada. Afinal, cavalo dado não se olham os dentes.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Desapego

Engraçado é o mínimo que se pode dizer sobre a vida. Engraçadas também são nossas paixões. O ser humano é um bicho esquisito e nojento. Mas, o que é pior: a visão que temos das coisas. Enquanto estamos apaixonados, acreditamos que o objeto é o mais lindo do mundo. Enquanto estamos inebriados com isto, não conseguimos nem ouvir direito. Até o mais agudo dos bocejos consegue parecer uma ópera inteira. A verdade é que mais engraçada ainda é a superação. Quando isso acontece, a gente já não consegue olhar pra cara da pessoa sem nojo. A voz, então? Parece um bando de gatos sendo esfolados. Realmente, a mente humana mascara muita coisa. Principalmente se tiver interesse nisso. É o que eu gosto de chamar de "tornar a transação mais fácil". Se isso não acontecesse, estaríamos presos a pessoas por quem sentimos náuseas. É verdade. Eu agradeço, então, ao meu cérebro por tudo o que me fez passar. Porque se eu a visse como é, talvez não teria sentido tal maravilhoso sentimento. A mais pura verdade: "o cérebro engana pra ajudar". Citando meu amigo de infância, Tom Zé: "eu to te confundindo pra tentar te esclarecer"; posso perceber que meu cérebro, amigo leal, não fez mais que sua obrigação. Hoje, sim, eu entendo que não existe amor sem um pouco de mentira e enganação. Se existissem, talvez a humanidade nunca tivesse se reproduzido a esse ponto.
Viva e deixe morrer

Xadrez

A batalha começa
Os clérigos se esgueiram
As torres se defendem
Os cavalos ziguezagueiam
O jogo se rearranja

O rei é protegido
Enquanto os peões dançam
Eles não usam black-tie
Eles são as marionetes do rei

Xeque-mate
A jogada foi malfeita
O jogador desiste
Só o rei cai
O império permanece
Anexado, maculado
Corrompido, destruído

Entre todos os vencidos
Me encontro num lugar especial
Entre todos os feridos
Me encontro falido

Neste mundo, conto comigo
Nenhum outro ser
Nenhum outro prazer
Minha dor, meu existir
Eu acho que sobrevivi

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Egoísmo

O caminho é solitário
Conforme a sede toma conta
A morte espreita
O mal aparece
Um susto se toma
Surge um Oasis
Com água fresca
Enquanto a vida desaparece
Era, afinal, uma miragem
Ilusão da necessidade
Era, pois, um sonho de infância
Se defender daquilo que mata
O amor que não surge
O perdão que morre sujo
Intocado, degrada-se o corpo
Maculado pelo tempo
Levando de volta ao pó
Sem sofrimentos demais
Só com um último suspiro
Cheio de arrependimentos
Em só amar a si mesmo

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O sebista

   A vida, como um todo, é engraçada. Trágicas mesmo, são as ocupações. A vida do sebista é tragicômica. Para ele, é trágica em quase todos os aspectos; cômica, porém, para quase todos os outros. Às vezes, eu acho que se eu não tivesse alguma história de vida, choraria todos os dias com as desgraças que me acontecem. Felizmente, dia após dia, eu aprendo a rir.

Coração

Dilacerado
Com farpas
Espinhos
Proteção orgânica
Da natureza
Da vida
Da evolução
Do universo
Contra você
Todos os males
Todo o ciúme
Desamor
Desarmonia
Desrespeito
Desespero
Tudo o que mostra
Nessa superfície
Rala e frágil
Que protege

Um ser, você
De interior pior
Ainda mais canalha
Porco
Nojento
Ridículo
E o pior de tudo
É o existir humano
A única das coisas
Que não deixa de ser

domingo, 24 de novembro de 2013

Suicídio

É na morte que encontro vida
Na melodia dos anjos caídos
Lúcifer, me traga luz!
Nestes tempos de tanta dor
Reluto a entender
Aquilo que não quis saber
Luto para perceber
Que meu corpo me trai
Cada vez que se vai
Causando-me repulsa à solidão
Uma amiga, já tão antiga
Que me abandona com ódio
Daquilo que, graças a você, me tornei

Ausência

O prazer de existir só há ao seu lado
Sem você, não há um eu completo
O que fica é uma tortura quase física
Que mostra apenas o que a distância faz
O sangue que percorre minhas veias
Enegrece e engrossa; sem vida, sem pulsar
Gangrenando os músculos, quebrando os ossos
Fatigando-me as retinas, os ouvidos, o nariz e a boca
Tudo parece se perder num mar de ilusões
Onde cada molécula se desfaz com várias negativas;
A recusa que tem em me aceitar como seu
Porque o amor não é o suficiente
E você já não entende como me sinto
Me abandona, singelamente, aos poucos
Me matando, por dentro e por fora, sutilmente
Arrancando a alma da carne, pútrida e fétida,
Levando-a a vagar neste mundo sem destino
Consumida pelo ciúme e toda a inveja do mundo
Daquele que lhe toca a mão, beija-te os lábios,
Abraça teu corpo, penetra tua carne,
E ouve suas súplicas de amor embebidas de aceitação

domingo, 17 de novembro de 2013

Amargura

Sutilmente, abraço a amargura
Trago intrínseca ao corpo
Envenenando a alma
Discorrendo sobre todos os defeitos
Perseguindo a tortura
Tratando-a como rainha
Fazendo com que ela se sinta em casa

Peço mil perdões aos outros
Aqueles que se ofendem
Com toda a maldade que torno minha
O egoísmo que surge em mim

Uma ânsia análoga aos enjoos
De uma gravidez infundada
Que procura trazer dor e sofrimento
Com um novo ser vivo
Um novo monstro

Uma doença suave e fatal
A humanidade, é claro
Nasce torta, inflexível
Criaturas aladas de chifres
Monstruosas e desagradáveis
Demônios absurdos que me tocam
Abusam do meu corpo
Tapam meus olhos
Meus ouvidos

Fazem-me andar regressando
Vislumbrando apenas o passado
Esquecendo-me do presente

A dor maior da vida:
Conviver com todos os erros
Arruinando-me por não planejar
Consumido pelos vermes da incerteza
Que tudo poderia ter sido melhor
Tivesse sido melhor elaborado
Como um plano escrito
Cartas para si mesmo
Cartas que revelam coisas
Que já não têm mais efeito

Jogo nesse destino uma ficha
Aposto tudo que tenho
Minhas posses e tudo que fiz
Meus pensamentos e conquistas
Prometo até mesmo um sonho

Só quero voltar ao tempo
E corrigir tudo que lhe fiz
Porque o que poderia ter sido
Não pode ser pior que o que é
Uma condição infecto-contagiosa
Onde o arrependimento é o maior sintoma
E é o único que eu sinto
E eu só penso... Por quê?

Martirizo-me por não saber viver
Com a possibilidade de mudar
Aquilo que nem ao menos sei se existiu
Só defino que é o que me lembro
E denomino de passado
Porque se fosse futuro
Eu ainda poderia mexer
E poderia vir a ser feliz
Não fosse pela maldita amargura
Que penetra no meu inteiro ser
E me lembra sempre
Que nada é o que parece ser

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Um dos meus últimos poemas

Se eu me for hoje
Quero ir com uma música
Não qualquer uma
Ela tem que ser bonita
E tem que falar de mim
Pros outros saberem
Quem fui e porque fui

As palavras não podem ser doces
Têm que ser amargas
Têm que lembrar de mim
De toda a dor que eu senti
E de todo o mal que me causaram
Foi a vida que eu levei
O destino que escolhi

Ponho o violão no braço
Toco o que me lembro
Esqueço o que tenho
Vem a dor e passa a cor

Grito rouco e louco
Parte de dentro
Fulminante e agudo
Como todo o saber
Que percorre meu infinito ser
Os caminhos da existência
Os meandros da persistência

Vem o mundo transparente
Saudoso e violento
Aprisiona a mente
E transforma a gente
Levando-nos ao abatimento
A melodia fúnebre fatal
Uma tortura banal

domingo, 10 de novembro de 2013

Amadurecimento

Bata, apanhe, sinta
Esse coração já não quer mais viver

A ruína desta muralha inteira
É meu destino derradeiro:
A vida fraudulenta, virulenta
É uma sombra violenta

Vomito minhas palavras
Com nojo de dizê-las
Verborrágico, encontro abrigo
Nas palavras, minhas amigas:
Doces mentiras

Como vermes que surgem
É a morte que me pune
Degradando-me a alma tingida
Azeda e amarga

Um sentimento satírico
Falsamente ungido
Imaginariamente mantido

Morrem as ânsias
Da libertação servil
Do corpo pueril
Pré-pubescente, uma flor
Segue, adolescente, a dor
Sem sentido, descontínua
Infernal: a gentileza descomunal

Criatura abissal, virginal
Horrenda e impura,
Que percorre o mundo
Gritando o meu tudo
Divulgando meu universo
Diferente do que faço
Sem quaisquer versos

Apaga-me da existência
Toma meu lugar
Sente-se em casa
E constrói seu lar
Um dos meus pesadelos
Um dos meus maiores erros
É a que idade me persegue

Os princípios que carregarei
O passado que não deixei
A vida que me carrega
A morte que se supera
A dor última de minhas quimeras
As Parcas segurando o "fio da vida" (o discorrer)

Temos nosso próprio tempo


Havia uma borboleta e um menino:
feliz, ele a observava voar, sinuosamente.

Pelas flores pálidas e sem odor,
ele via a beleza da vida simples,
enquanto ela se transformava em lagarta.
Era ela, afinal, um curioso caso.

Podemos sempre ser quem quisermos.
Crescer é definitivo; amadurecer é subjetivo.

Nossos corpos e nossa mente, desvinculados,
discorrem na pintura da vida
sobre quem é mais importante.

Se esquecem, porém, da excepcionalidade
Que é o destino dar a volta
Para recuperar seu tempo perdido

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Alienado

Eu vivo no mundo da lua
Sozinho, sem ninguém
Sem saber pra onde eu vou

Uma vida impossível
Um sonho possível
Uma sensação terrível

É lá que eu vivo,
Na lua do mundo
Sem sentir as cores
Sem ouvir a música
Sem entender o puro

Parte a parte
Faz-se metade
E, depois, faz-se tudo
Então, cria-se o mundo
E entende-se o futuro

Do meu ponto
Tenho minha vista
Do seu, há razão
Seu direito; meu perdão
Meu amor e sua dor

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Casulo

É de medo que se faz
Tudo aquilo que se traz
Do peito e do mundo
O externo unido ao interno
Preparado, está munido
Com todos os recursos
É a proteção do seu tudo

Ao dormir

Sonha, criança
Com todas as coisas
Todas as cores
E todas as formas

Sonha, criança
Porque o mundo é seu
E quem decide é você
Quem vem e quem vai
Quando vem e se vai

Poesia sem título nº 12

Esvai-se a vida
E fica a morte
O sentimento preciso
Simples e conciso
Da ternura de ver
Sentir e ouvir
Aquilo que uma vez foi
O que jamais será
A sensação efêmera
De saber qual é
A cor das estrelas

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Decompõe-te

Joga-te às traças
Mostra a tua cara
Vá de uma vez
E decida quem te fez
A terra que te abriga
É de ferro, uma amiga
É a morte, é a vida
É mentira, afinal, a sofrida
Porque a dor, tal inimiga,
Nunca foi mais que uma briga
É o que sempre sentiu
Uma porta que se abriu
É um sentimento que surge
É o que mais se converge
A vida que me aparece
É o amor que me apetece

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Inconstante desprazer do existir

   Acho que ninguém perceberia se eu desaparecesse. Talvez eu esteja sendo um pouco individualista ou só egoísta, mas não acho que alguém perceba minha existência. Os dias já não acontecem com a mesma velocidade. Tudo parece demorar uma eternidade. O tédio me permeia como uma infecção incurável.

Rainha do Nilo

Soberana do grito
É do peito que se faz o leito
Do amor que surge a dor
Em tese, é um ciclo de cor
Sem saber ao certo
Por que fico boquiaberto
Cada vez que chega perto
E encosta no meu inteiro
Sendo do abuso, o amor primeiro
Nefertiti, a rainha do Nilo

terça-feira, 24 de setembro de 2013

As vindas

Você faz eu me sentir
Uma vez mais, eu
As bordas do inferno
Você faz o céu tocar

Você faz meu coração pular
Perder uma batida e parar
Mas, você me faz voltar
E, uma vez mais, ao dançar
É que você me faz te amar

Sentir teu seio palpitar
Em branco, ver-te amar
De toda dor, nem um pio
E todo o ardor, um sabor
Cheio de beijos, o calor

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Retorno

O que uma vez foi,
veio novamente
O que uma vez sentiu,
tocou-lhe distintamente
As cores que ali dançaram,
são dádivas da mente
Os versos que cantaram,
gritam sutilmente
O tempo que discorre
já não interrompe, pacientemente
É a paixão que volta,
que te mata calmamente

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Dilatação

Pouco a pouco, vai abrindo
É o céu se expandindo
As flores vem nascendo
E as cores, tão doces, mantendo
Conforme a noite toca
Tão suave, a melodia
A grande harmonia
É ela, afinal, a vida
Que surge, tão bonita

sábado, 14 de setembro de 2013

Cotidiano sonhador

Os dias passam
os poemas param
As noites chegam
e os amantes se beijam

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

"E o vento levou..."

Era uma história que havia começado há tantas luas que ele já não se lembrava. Os nomes foram apagados de sua memória como um pó que é soprado para longe pelo vento. A luz que o dava raciocínio, se apagava depressa. O mar surgia e ia, todos os dias. A maresia o lembrava das memórias que ele detinha, da infância. A juventude lhe fora apagada como uma forma de repressão. Preso em seu próprio mundo, fez-se uma vida.

sábado, 7 de setembro de 2013

Poesia sem título nº 11

Ecos do futuro
Afetam meu presente
Matando meu passado

As cores surgem
Elas interagem
Se misturam
E se separam

Conforme notas tocam
Melodias surgem
Portões se abrem

É a vida que se segue
É a morte que persegue
É o filhote da dúvida
Que ainda se ergue

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Poesia sem título nº 10

Caminhando no calor, sobre as estrelas
Formigando-me nos pés, as nuvens
Amortecendo minha queda, a grama
Me escondendo, a sombra da árvore

O som dos pássaros me percorre
A espinha que arrepia todos os pelos
O peito que acelera com todo receio
De todo amor que aparece sem medo

Seja quem for, quem estiver, diga-me
O nome da rosa mais bela, que floresce
Na montanha mais alta, da mais escura
Floresta do mundo, casa de todos nós

O cheiro mais puro, o mais vermelho,
É salpicado de negro; a derrota mais triste
Onde me entorpece os músculos enrijecidos
Matando-me lentamente, com o sorriso

Um suspiro, um grito

Todos os sons
Acabam com um suspiro
Um beijo, um grito
Todo o silêncio é você
Um cheiro, à esmo
Sabor de futuro
Amor sem passado
Destino mal pensado

domingo, 25 de agosto de 2013

A morte de nós dois

Às vezes, eu paro e penso. Como seria minha vida se você morresse? Tudo que me cerca é uma aura de dor. Vendo-lhe aqui deitada, eu vejo que nada mais nos une. Meu peito se inflama com a chama daquilo que me é mais sagrado. Só os deuses sabem como meu amor um dia já foi. Conto as horas pra te ver. Mas, já não é com o mesmo intuito. Nossos encontros se dão com escárnio disfarçado de superação.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Execrável

Às vezes, eu paro e penso na solidão.
Como está tão vazio e tão tumultuado.
Os sentimentos me fecham os olhos para aquilo que me é mais inevitável: a morte.
A melodia toca como uma vela branca sem odor, causando uma sensação de que tudo está parado.
Esperando uma palavra, o sopro divino.
O despertar pra vida.

domingo, 11 de agosto de 2013

Relatos de cama

Estava em casa assistindo televisão quando me ligou. Corri para atendê-la. Minha esposa estava tocando o violoncelo, no quarto. "Alô", disse com a voz grave, enquanto eu atendia. "Era engano, querida", gritei para que ouvisse. "Você sabe quem é?", disse a voz do telefone. "Não", respondi, com o coração já acelerando. "Sabe, sim; sou eu... Estou no lugar de sempre, te esperando... Você vem?", disse a voz sedutora. Um número X de mulheres apareceu em minha mente. Mas, restringi ao número Y que não me odiava que poderia fazer esta ligação...

sábado, 10 de agosto de 2013

Menina

Contando uma história, perco-me nas palavras
Caio
Uma armadilha feita pelos meus inimigos para me destronar
Somos infinitos
Brincamos de pique, todos os dias, todo o tempo, cada segundo
Somos felizes e tristes
Amigos e inimigos, uma grande ciranda desastrosa, sem objetivo
A gente aceita o que acha que merece
É a vontade de ter aquilo que merece: uma vida, a minha vida
Mas, e se não for suficiente?
Então, a gente pega um vento qualquer acolá, e a gente inventa
O tempo corre pra trás
A gente manipula a memória como deseja: um sonho, o meu sonho
As cores se perdem em nuvem
A chuva cai sobre mim como uma dádiva da vida que toca em toda fibra
Emoções sem som
Choro de menina, perfume de menina, vida de menina
Uma vida de mentira
Gloriosa e sentida, sedutora criaturinha, essa que tanto me atrai
Ó doce...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O desequilíbrio

Sigo minha vida sem dançar
Não o sei fazê-lo

Vivo a ver TV
É só o que sei fazer

Vivo um dia após o outro
É o jeito, não é verdade?

Andando a pé, as nuvens acompanham
Mas, de carro, elas ficam pra trás

A solidão bate certeira
Conforme a noite mais escura aparece

Invade-me a alma sem som
Ressoa no meu corpo um eco

O passado me contorce em seco
O suor da febre daquela valsa

Só apareceu para me desequilibrar
A vida que eu tanto tentei viver

Sem alienação
Sem sensação

sábado, 3 de agosto de 2013

Poesia sem título nº 9

Melodias de cores gritam ferozes
Odores dos cânticos arrebitam os narizes
Procurando sempre incitar a revolta
Tentando sempre confundir o puro

Te ver é necessário
Assim como todo mal
Faz-me ver o valor da vida

Sonhar é esquecer a vida
Respirar é um mal involuntário
Abrir os olhos é se iludir

Dançar na ponta dos dedos
É tentar alcançar o céu
Pairar no ar é ter um salto de fé
E cair é lembrar de que sou feito

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Dois botes

Quis o destino mais uma vez que se encontrassem naquela ponte andando lado a lado. E, nunca antes na história, o destino se fizera cumprir de tal forma tão esplêndida. Veja você onde é que o barco foi desaguar.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Quem conta um ponto, aumenta um morto

Pra falar a verdade, existem poucas coisas que eu faria nessa vida. Sonho com o dia em que poderei ser livre. Mas, enquanto isso não acontece, vou levando a vida devagar. Talvez, quem sabe, o amor não acabe. Mas, a tendência é que isso aconteça, conforme tudo o mais.

Poesia sem título nº 8

Eu posso te dar
Tudo aquilo que quiseres
As estrelas apagando
O sol se partindo
Ou a lua fugindo
Todos os sinais da ruína
Por ti, meu mundo vai caindo

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Mal do Século

O frio me enche os pulmões
Enquanto a tosse chega
Assustadoramente, um calafrio
Me percorre a alma, elétrico

Um espirro rápido
Um silvo de saúde
Um assobio de morte

A doença se instala
Lenta e terrível, abre as portas
Vislumbro o suave tecido
E tudo aquilo que já se foi

Um odor atravessa
Pútridas são as lembranças
Os monstros do que se diz

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Tristeza destinada

É de lágrima
Que se faz o mundo
Desce a correnteza
E faz-se o tudo

É da luz que se constrói
E das trevas que se foi
O que tudo surgiu
E tudo ruiu

Na calada da noite
Onde as corujas piam
E os lagartos silvam
E os lobos se alimentam
De tudo aquilo que são

Esquecimento da névoa
É o navio que vem
Onde os faróis mostram
O destino de ser
O passado que já foi

O tempo-distância das trevas-luz

As asas do escuro batem
E os olhos piscam tentando esquecer

As luzes da ribalta brilham
Mas, logo se apagam novamente
E a brisa fresca das colinas
Já não sopra mais, então

E o hálito dos deuses é forte
Me protege e me guarda
Dos perigos, me separa

Mas, mesmo assim, eu a procuro
Aquela que me deixou pra trás e esqueceu
Que o mundo não só gira
E toda noite volta, cada vez mais escura

No coração que bate
Cada vez menos, por segundo-luz,
A distância entre céu e inferno

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Paraíso

Suponhamos o céu
As nuvens brilhantes
E as estrelas ofuscantes
A brancura sideral
A loucura espacial
Dos mundo, um longo véu

As minhocas fazem túneis
EOnde as belas árvores surgem
Com raízes diversas
E animais, tão alto, rugem

Com rios translúcidos
Brilhantes peixes transparentes
Fantasmas aparentes
Seres mortos, novamente vivos
Água da vida, fonte da juventude
Na montanha de grande altitude
A sobrevivente decrépita
Com um vento que apita
E mostra qual o verdadeiro sentido da vida
Que é viver sem medida
(fonte: http://ebineyland.deviantart.com)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A herança

Eram três. As irmãs possuíam nada em comum além da linhagem. Eram Maria, Teresa e Elisa. Uma católica, outra evangélica e, ainda, uma espírita, respectivamente. Não se viam há trinta anos. Até então, uma desavença familiar as havia separado, sem maiores discussões. Depois da morte dos pais, a briga pela herança fragilizou ainda mais os laços familiares. Suas vidas prosseguiram como se nunca tivessem se conhecido. Elisa, a primeira, teve dois filhos, Rita e Tiago. Maria, a segunda, teve três, Samuel, Rafael e Gabriel, trigêmeos. Teresa, porém, não podia ter filhos. Amargurada, se tornou uma devota ferrenha, onde nada lhe dava mais consolo que Deus. "Só Ele sabe de todas as coisas", ela repetia para si mesma, todos os dias, ao acordar.

Perde-se o molde

Quando se perde o lápis
Sublime é a imaginação
Que não permite limites
Unindo todas as coisas
Em um único espiral eterno
Com as luzes da ideia
Que faz jus ao arco-íris
Colorindo o céu de outra cor

Onírico direcionamento

Onde ir?
Nadar, voar,
Íngreme escalar,
Rastejar,
Indicar,
Crer, entender
Ou apenas imaginar?

Cercamento

Toco-lhe os dedos
Numa ciranda, invento a dança
O vento sopra
E o fedor pútrido me cerca
A melodia toca
E a voz ressoa
Ecos do futuro imaginam-se
Projetando-se ao passado
Como um ciclo de existência
A humanidade não perdoa
A condição de ser
E a exigência de mentir
Desrespeitar apenas o sonho
De viver como sempre quis:
Ninguém; nem mesmo eu
É só ela, que bate à porta
A doce e suave morte

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Loucura sensorial

Os olhos me abrem
A percepção me diz
Sussurros me assustam
E a razão me foge às pernas

Onde o caminho se ergue
Nos tijolos amarelos
Que se pintam de azuis
Se confundem com o céu

Em túneis e devaneios
De brutas flores canibais
Gentis e frívolas se abrem
À noite, com terror

E as pétalas voam
Com a leveza do vento
Que vende a beleza
Do assobio agudo

Pio do pássaro raro
Fruto da imaginação
Melodias do coração
Serenatas de paixão

Abelhas verdadeiras
Tristes florais rubras
Com espinhos de açúcar
Dedos de mel

Peço-te o machado
E acerto-lhe no pecado
Procurando sempre
Perdão e redenção

Minhas [des]ocupações mais valorosas...