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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Lapsos de um dia dos mortos (ex-amantes)

Entorpecido por cada gole, me fiz homem na hora em que a beijei nos lábios. Do mais doce mel, não senti nada de arrependimento. Já sentira isso antes. Foi com tal graça que beijei teus seios, mas não senti nada além de excitação. Toquei na tua vulva com meus dedos e, no vaivém, me senti mais homem que nunca. Mas isso não durou.
Olhei para o lado e não vi mais ninguém. Estávamos sozinhos ali, naquele momento. Éramos só eu e ela. Mas eu não me sentia capaz. Enrijecido, pensei em colocá-la de quatro, naquele momento, mas não me foi permitido. Ficamos só naquilo. Beijos, abraços e movimentos tão frenéticos que acordaram fibras de mim que eu não sabia que existiam.
Mas eu já sabia qual era seu gosto, suas procedências, seus gostos e limites. Não era nada de novo. Não era o que eu queria. Era o que eu tinha disponível numa mente entorpecida, ébria, tomada pelo sabor transparente de uma água intoxicada. Eu não era eu mesmo. Eu me sentia tomado pelos hormônios que me acordavam de um sono que, há muito, me fazia hibernar. Eu me sentia desperto, mas nada alerta. O cérebro que eu tanto sentia orgulho não me serviu de nada e caí, mais uma vez, em garras que me prenderam até o sol raiar.
Nessa noite, eu me vi preso em partes de mim que não eram meu eu normativo. Estou confuso. Existem lapsos em minha memória. Mas sei que não consigo mais me olhar no espelho sem lembrar que traí cada convicção do meu corpo. Momentaneamente, fui um homem feliz.
Confuso, acordei no dia seguinte vendo-a deitada ao meu lado. Encurralado, me senti preso e abismado. Perguntei-me o que poderia fazer, mas nenhuma resposta me foi conclusa. Ainda hoje não sei o que aconteceu. Ainda não sei o que poderia ter feito. E ainda me culpo por ter caminhado ultrapassando os limites anteriormente impostos. Mas nada me deixa mais triste do que lembrar que tudo poderia ter sido melhor se eu não a tivesse encontrado, naquele estado.
Mas foi ela quem me provocou, me puxou para um canto, fez de mim o homem que sou e se divertiu com o que se passou. Não sei o que fazer, nem se posso reclamar. Sou humano e ainda posso errar. Aquilo foi tortura e, mesmo assim, não tem nome. Hoje, sinto só desprezo. Não consegui olha-la nos olhos e sentir qualquer coisa a não ser esse arrependimento.
A agressividade com que escrevo essas palavras não tem sentido. Ela tentou me colocar contra a parede, crucificar-me pelos meus pecados. Mas não fui eu que menti descaradamente. Não fui eu que enganei para tentar ficar por cima. Não fui eu que mentiu sobre sua aparência para tentar diminui-la. Eu que sofri com todas essas coisas. É engraçado como sempre lidei com ela tal qual uma vítima quando, na verdade, fui eu que sofri de mentiras contadas sem qualquer propósito.
Magoei-me pelo que me foi dito diretamente quando, tempos antes, magoei pelo que foi dito pelos outros. As fofocas podem acabar qualquer coisa e, com certeza, elas teriam sido melhores do que qualquer mentira que eu possa ter ouvido desses lábios finos, nesse rosto redondo, nesse corpo voluptuoso.
O teu seio já não me faz falta, tua vulva, também não. Assim como ao teu lábio, quero distância dessa mente doentia que insiste em me aparecer na lembrança, em forma de nostalgia. Sempre que eu te vir, procurarei evitar. Pois não sou obrigado a sofrer em teu nome, quimera dos meus pesadelos últimos.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Sem pressão ninguém afunda

   Por toda a minha vida, eu sonhei em dormir uma noite sossegado, sem qualquer preocupação. Mas acontece que isso não passava de um sonho. Mesmo acordado, eu não conseguia pensar em outra coisa. Perdia o sono com isso. E, assim, eu continuava.
   Não era que eu pensasse nas coisas ou coisa do gênero, mas é que eu pensava em como seria em não tê-las na minha vida. O continente pelo conteúdo. Um caso simples de metonímia. Pensar em como seria não ter problemas sem, na verdade, enumerá-los.
   Colocar prioridades na minha vida, sempre foi um problema, mas isso se tornou ainda mais engraçado quando comecei a trabalhar. Acontece que eu fazia o meu trabalho relativamente bem, mas fazia o alheio ainda melhor. Por este motivo, acabei trocando funções no escritório.
   Secretamente, claro. Eu não era inteiramente competente para realizar tais funções. Algo que me surpreendeu. Até mesmo aos meus superiores. Algo sem precedentes, até então, quando muitos resolveram se mostrar. Parece que funcionávamos melhor sem pressão.
   Eu achava que funcionava bem sob pressão, até melhor do que o normal, até ver que era o meu traseiro na reta. Até eu ver que haveria consequências verdadeiramente desastrosas para o meu péssimo desempenho. E foi assim que eu comecei a ir mal.
   Eu tentava fazer o que eu achava que queriam que eu fizesse e acabava que eu não fazia o que sabia fazer melhor: meu próprio trabalho. E isso me sobrecarregou dia e noite, noite e dia. E eu não sabia exatamente o porquê disso tudo. Um trabalho ainda mais gratificante que o meu, impossível. Mas eu me encontraria sem ele se não encontrasse uma solução.
   E eu encontrei. Fazendo por meio de um favor, eu acabei fazendo o trabalho da mesa vizinha. E, assim, quando fiz o experimento, pedindo que ela fizesse o meu, percebemos o quanto a pressão nos prejudicava. Então, todos aderimos. Foi um movimento grande, mas silencioso. A chefia só percebeu depois de algum tempo, mas aí já era tarde demais.
   A discussão foi levada a uma reunião onde todos participamos de rostos sérios e apreensivos. A pauta só possuía um assunto. Deveríamos parar porque o regulamento da empresa não o permitiria fazer do jeito que queríamos. A discussão foi curta e grossa. Expomos nosso lado e, curiosamente, eles aceitaram nossos termos.
   Mas a burocracia demoraria muito tempo, de modo que continuamos a fazer o que queríamos na surdina. Acontece que a chefia sofria do mesmo. Era um problema cultural, praticamente. O trabalho que você faz, é seu, contanto que não tenha alguém para lhe vigiar porque, nesse caso, o trabalho será dessa pessoa.
   O sossego das noites está não em não ter problemas, mas sim em saber administra-los. O fato é cada questão tem sua prioridade e seu trabalho nunca estará em cheque contanto que você saiba fazê-lo melhor do que qualquer outro. Para isso, porém, você precisa fazer do seu jeito. E, se não tiver um, o primeiro passo é descobrir.

sábado, 29 de março de 2014

Ossos do ofício: novos projetos

Algumas coisas podem ficar sem ser ditas. infelizmente, sou eu aquele que deve dizê-las. as palavras são reflexo da condição humana. existem e resistem ao longo do tempo, sempre se reinventando. é tarefa do poeta cronista relatar uma com a outra. e, assim, seguir.
A vida começa com moléculas que dizem sim umas às outras. sempre um sim. isso é Clarice Lispector, não me encare mal. ela que o dizia. desde que o universo é universo, existe um sim. e se não existisse? bom, ela não estava lá para ver isso. nem eu. nem ninguém. anti-matéria, quem sabe?
Assunto controverso. ninguém sabe o que é. só os físicos. e ninguém sabe como usar. mas a pergunta mais importante é como fazer. é que se entrar em contato com matéria, explode. tipo fogo e combustível. entende? não? nem eu. muitos não entendem. a maioria, pra falar a verdade.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Incertezas

Eu queria saber meu nome, de onde vim e pra onde vou, mas acho que a certeza é algo demais pra se pedir quando não se sabe de mais nada e tudo é um Mal de Alzheimer gigante, que me faz ficar louquinho atrás das chaves da cozinha, que estão em cima do armário, no meu quarto, onde só eu hábito e minha lei provou-se incapaz de barrar os monstros que me assombram noite após noite com as coisas ruins, aquelas que jamais poderei esquecer, e que, às vezes, eu tento inventar de brincar comigo mesmo, pra ver até onde eu consigo chegar, sem perceber que, no final; só o que me faltava era um ponto final entre uma coisa e outra, pra não tumultuar, nunca mais, os pensamentos que eu tenho tanto medo de ter, sozinho no escuro, quando é dia e ainda está claro, e meu peito ainda se inflama por saber que seu apoio me é incondicional, lembrando sempre, que nada é pra sempre, a não ser esse amor que detenho pelo sol e pelas estrelas, que são símbolo da vida que eu escolhi carregar.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Gemini

Quando os deuses criaram o mundo, não achei que ia dar em muita coisa. Fui, então, observar. Havia uma criatura diferente de qualquer outra. Não tinha pelos, penas, asas, bico ou cauda. Havia, no lugar de couro, um tecido mais fino e macio. Passei a andar entre sua espécie sem mostrar minha verdadeira forma. Ocultei minha presença dos mais sensíveis. Conheci, então, o mais belo deles. Um homem diferente de qualquer outro que eu havia conhecido.  Não tardou que eu passasse a acompanha-lo a todos os lugares que ia. Era como uma sombra invisível. À noite, podia-se ouvir minhas lamúrias de não estar ao seu lado. Silenciosamente, minhas lágrimas caíam como chuva nos terrenos férteis, tornando-os secos e inóspitos. Os desertos tornavam-se mais escuros e sombrios. O mal começava a rondar pelo mundo. Todos os dias, fazia uma prece aos deuses. Meus gritos formavam terremotos e furacões onde quer que passavam. Um dia, porém, cansados de ver tanto mal na Criação, o rei dos deuses resolveu me conceder meu maior desejo. Deu-me um corpo e um nome. A felicidade, antes um sonho inalcançável, estava se tornando uma possibilidade tangível. Corri atrás do meu amado, com lágrimas aos olhos apenas para vê-lo caído, morto. Sem sentir, desfaleci. Meu corpo se foi tão rápido quanto veio. Uma dor, uma dormência, um ardor; mil sensações vieram, de súbito, ao meu recente coração. Um último grito. Ecoou pela vida e pela morte, acordando  deuses e  demônios. Apiedaram-se de mim. Nos puseram no céu, sempre juntos. Os dois amantes. Os gêmeos.
Gemini - JAMIESON, Alexander

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

De graça, até injeção na testa

Se eu soubesse que minha vida seria assim, talvez eu nunca tivesse parado pra nascer. Foi uma coisa meio de repente que cresceu, como uma bola de neve. Se eu soubesse tudo o que ia encarar, teria pensado pelo menos uma vez, duas vezes, antes de aceitar. Essa proposta é indecente. Uma vida. Tudo o que ela dá, ela tira. Você nasce bonito, fofo e pronto pra aprender. Mas, no momento que você cresce, fica mais bonito, sensual e atrai olhares indiscriminados. A idade vem e você vai ficando sexy. A experiência torna cada relação mais forte e pessoal. Chega um ponto que você fica expert em driblar bolas. Mas, chega também o ponto em que você começa a esquecer. A memória recente se vai como se nunca tivesse vindo. A memória antiga passa a ser a recente, como se você nunca tivesse saído dos seus anos dourados. Seus amigos, que você tanto prezava, já estão mortos. Você os procura, incessantemente, sem saber para onde se foram. É uma surpresa maior ainda quando você encontra os que estão vivos, mas não se reconhecem porque ambos são recentes demais. Mas, eu nem falei da aparência. Quando chega nesse ponto, onde a memória é um simples sopro de vitalidade, a aparência já não importa mais. Todas as fibras do corpo perdem o vigor. Elas passam a ser meras tiras de couro por todo o corpo. Então, invariavelmente, tudo cai. Os peitos, o excesso de pele nos braços, a barriga etc. Tudo passa a ter uma consistência diferente, mole. Os cabelos, antes cheios de cor e volume, passam a ser um gasto desnecessário de energia. Seu corpo abandona, na esperança que dure um pouco mais. O que ele não percebe é que nada mais importa. O corpo não perdura e a mente dedura. A morte iminente se aproxima, devagar e suave. Quando você sabe que vai morrer quer duas coisas. Quer que se lembrem de você com carinho, mas também deseja que não lamentem sua vida; você viveu bem. Foi com simplicidade e seriedade que passou os seus dias. Ninguém sabe o que vem depois. Essa é a grande curiosidade dos idosos. Já passaram por tantos meandros que conhecem a existência como a palma das próprias mãos. Sendo assim, só têm mais um caminho a percorrer: a última jornada. O santo sepulcro para todas as almas: o pós-vida. É, se eu soubesse que ia ter que passar por tudo isso, talvez eu não tivesse aceitado. Felizmente, a vida é uma surpresa tão grande que me diverte saber que tudo vem de bom grado. A experiência nos ensina a aceitar tudo o que vem de mau gosto. Não podemos negar nada. Afinal, cavalo dado não se olham os dentes.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O sebista

   A vida, como um todo, é engraçada. Trágicas mesmo, são as ocupações. A vida do sebista é tragicômica. Para ele, é trágica em quase todos os aspectos; cômica, porém, para quase todos os outros. Às vezes, eu acho que se eu não tivesse alguma história de vida, choraria todos os dias com as desgraças que me acontecem. Felizmente, dia após dia, eu aprendo a rir.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Inconstante desprazer do existir

   Acho que ninguém perceberia se eu desaparecesse. Talvez eu esteja sendo um pouco individualista ou só egoísta, mas não acho que alguém perceba minha existência. Os dias já não acontecem com a mesma velocidade. Tudo parece demorar uma eternidade. O tédio me permeia como uma infecção incurável.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A herança

Eram três. As irmãs possuíam nada em comum além da linhagem. Eram Maria, Teresa e Elisa. Uma católica, outra evangélica e, ainda, uma espírita, respectivamente. Não se viam há trinta anos. Até então, uma desavença familiar as havia separado, sem maiores discussões. Depois da morte dos pais, a briga pela herança fragilizou ainda mais os laços familiares. Suas vidas prosseguiram como se nunca tivessem se conhecido. Elisa, a primeira, teve dois filhos, Rita e Tiago. Maria, a segunda, teve três, Samuel, Rafael e Gabriel, trigêmeos. Teresa, porém, não podia ter filhos. Amargurada, se tornou uma devota ferrenha, onde nada lhe dava mais consolo que Deus. "Só Ele sabe de todas as coisas", ela repetia para si mesma, todos os dias, ao acordar.

sábado, 6 de julho de 2013

Melancolia

Tudo na cidade funcionava em perfeita ordem. Até que se viu, brilhando no céu, a uma grande distância, um monstro que se aproximava.

A mãe penteava o cabelo da filha, preparando-a para dormir. O pai, observava com amor e carinho. E o irmão ainda estava acordado, estudando. As provas do ensino médio não eram fáceis. E a avó já estava cochilando no sofá, enquanto passava a novela. E o avô, morto e cremado, estava em uma urna banhada a ouro, onde observava toda a família.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Bem-vindo ao circo

Eu queria entender todo esse fuzuê que todo mundo faz quando a gente quer silêncio. Será que é verdade? A dor me consome os miolos enquanto tento pensar numa maneira inteligente de sair daqui. E gasto mais energia tentando me encolher, numa pose constrangedora, do que sair dali. Mas, será que pedir silêncio não resolve? Acho que as pessoas não iriam me ouvir. Acredito que, sinceramente, tudo o que eu poderia fazer é me fazer ouvir de outra forma. Mais barulho resolve? Não sei. Vamos tentar.
[...]
Não sei se adiantou. Algumas pessoas pararam, olharam para os lados, viram minha dor, se simpatizaram e pediram silêncio. Outras, passaram por estes mesmos estágios, mas ao perceber que o silêncio não reinava, decidiram voltar a fazer barulho. Se deram por vencidos. Realmente, faz sentido. Se não posso com eles, por que não me juntar a eles?
[...]
Não consegui. Minha dor de cabeça está forte demais. Está me cegando. Meus músculos doem. Não consigo me levantar. Está me sufocando. Uma pergunta ecoa minha dor, alisando-me os músculos e entorpecendo a carne. Será que a bagunça começou com minha dor ou minha dor começou com a bagunça, quando eu percebi que ela não me fazia bem? Acredito que eu poderia sufoca-la, se arranjasse mais voluntários. Mas, percebo que todos se conformam que minha dor não é o suficiente para mudar algo que me parece tão mal...

terça-feira, 16 de abril de 2013

Fácil demais


"Você me tem fácil demais", ela disse enquanto ele a beijava, repetidamente. Era uma noite fria e melancólica, onde ela se sentia excitada com o som do vento que batia as janelas. A casa era antiga, mas nem tanto. Era bagunçada demais. Entretanto, não era suja. Ele não parecia o tipo que se preocupava com bagunça tanto quanto com sujeira. Ele não parecia nada. Ele só a tinha chamado pra sair daquele bar nojento. E ela, sem saber o que dizer, aceitou. Foram no carro dele. Ele disse algumas palavras doces e ela caiu.

segunda-feira, 25 de março de 2013

O cronista

   Em uma linha, tento escrever minha vida. Suaves versos de uma prosa delicada. Mas, acaba ficando maior do que eu imaginava. Mas, também fica menor do que eu queria. Uma crônica dos meus dias, presa às letras, sendo descrita como se não houvesse nada melhor. Mas, há; o problema é que eu não sei como descrever. Acho que não interessaria.

segunda-feira, 11 de março de 2013

"Você precisa melhorar"

   Os seres humanos tem um problema. São crueis demais. As palavras mais suaves podem ser as mais perigosas, dependendo de como são ditas. Carinho é essencial. Mentiras podem ser bons caminhos a se tomar, não acha? Eu penso que sim.
   "Você precisa melhorar", ela me disse, como se eu fosse a pior pessoa do mundo. Eu a fiquei encarando e decidi que não valia a pena. Tudo que pratiquei, posto a prova, naquele instante. Eu amaria dar um soco na cara dela, mas decidi que a vida valia a pena demais. Não ia estragar minha paciência por isso. Ah, que se dane.
   Dei o soco.
   "Por que você fez isso?", ela me perguntou, sentada no chão, com o nariz escorrendo sangue. E eu respondi, calmamente, como se nada tivesse acontecido: "porque eu quis, uai; precisa de mais o quê?" E ela me encarou, como se não estivesse acreditando no que estava acontecendo. Tudo foi rápido demais a partir dali. Minha mão, antes em fogo, agora estava quente e dolorida. Eu não conseguia mexer os dedos.
   A próxima coisa que eu me lembro é de estar sentado na sala da coordenadora. Ela era baixa, mas inspirava medo. Sua presença já era mero caso de chamar a mãe. Seu sorriso havia desaparecido no instante que eu e Camila entramos pela porta. O pingo de gente perguntou o que teria acontecido; Camila, na mesma hora, respondeu que não havia sido nada demais. Mas, nos entreolhamos como se estivéssemos escondendo um mapa do tesouro. Ela perguntou, mais uma vez, só que para mim. E eu respondi, com clareza:
   "Eu não fiz nada demais. Eu estava cuidando da minha vida, sentado na sala, quando ela chegou. Ela abriu meu caderno, tirou um dos meus textos e, contra minha vontade (e apesar dos meus esforços), ela leu e começou a debochar. Ela me disse, mais de uma vez: 'você precisa melhorar, sério mesmo'. Eu tentei, calmamente, pegar o meu texto, mas ela não me devolvia. Ela parecia estar se divertindo especialmente com as pessoas que se juntavam ao nosso redor para ver o que acontecia. Ela decidiu, então, ler em voz alta. Eu fui me sentar. Tentei me acalmar. Mas, o fogo era forte demais. Esperei que ela terminasse. Todavia, quando ela me disse, mais uma vez aquelas... palavras indesejáveis... eu a odiei mais que tudo no mundo. E, então, dei o soco. Foi só isso que aconteceu. Nem mais, nem menos. Nem fede, nem cheira."
   O pingo de gente ouviu atentamente o que estava acontecendo e, para não me dar razão, me suspendeu (apenas na prática, pois ninguém além dela mesma ficou sabendo disso). A menina foi suspensa, de verdade. Ficou três dias em casa e, quando voltou, estava mais bronzeada que nunca. Até o cabelo estava mais claro.
   Realmente, seres humanos podem ser crueis. Mas, cada um ganha o que merece. Eu acredito que ela ainda vai apanhar muito na vida. Porém, por enquanto, deixe-a ser uma rainha. Porque cada trono cai em areia e sal, corroído pelo tempo e, algum dia, eu também serei rei. E quando o for, aproveitarei cada segundo.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Carta ao sax

Outro dia, quando estávamos a passar, eu e o senhor meu marido, observamos um sem-teto tocar o saxofone. E que instrumento magnífico ele tocava. Senti-me uma princesa, sendo cortejada. O senhor meu marido não tardou e chamou-me a dançar. Conforme bailávamos, e todos os outros nos observavam, revi todos os nossos momentos juntos. Não bem entendi na hora, mas o coração pulsou devagar. Enrubesci as partes altas e baixas, temo dizer. O espírito se inquietou e começou uma frenética maratona. Após o término da música, dei-lhe alguns trocados e agradeci, firmemente. Outros também agradeceram, não somente ao saxofonista, mas à mim e meu marido, pelo show. Decidi tomar aulas de dança. Meu marido não suportou a ideia, sinto dizer, mas aceitou. Logo estávamos dançando como marido e mulher, realmente, devem dançar. Nos tornamos os melhores da turma. Sempre me lembrava do show de saxofone que era dado, todos os dias, naquela mesma praça. O senhor não era de todo mal. Vestia-se mal, era feio e sujo. Seu nariz era vermelho, indiferentemente de muitos outros beberrões da região. Sua pele era bronzeada, de um tom acastanhado, muito bonita. A barba pendia, longa, do rosto robusto e redondo. Ele fedia, mas não era sua culpa. Nunca mais havia passado por aquela praça com meu marido. Ele andava demasiado ocupado e sem tempo para mim. Decidi não mais passar por ali, até que meu marido me convidou; o que, eventualmente, aconteceu. Fomos e dançamos, várias vezes mais. As gorjetas continuavam frequentes e suficientes para pagar a dose diária de cachaça. No final, agradeço ao saxofonista, pela chama que se acendeu, após tempo demais apagada!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Um grito

O vazio existencial é essencial para um bom desenvolvimento cognitivo perante a vida, como um todo.
Um rato passa correndo, enquanto olho para um artista. O momento é rápido e não entendo muito bem o que está acontecendo. Tenho medo de ratos, sinto importante ressaltar. Animais, em geral, me assustam. Gatos, principalmente, pois suas garras afiadas podem transmitir doenças demais. Cachorros latem e intimidam, sabia? Eu tenho muito medo, assim como vocês também deveriam ter. Estou em uma ponte, num dia quente, ensolarado. O artista olha a tudo e todos, com sua visão especial. Eu não sei bem de onde ele é, não me parece estranho. Sinto que tudo ganha vida em sua mão. Ele parece talentoso, pelo modo como fala. Meu medo desaparece, após um grito. O grito. O maior que já dei. Todas as pessoas pararam para me encarar. Eu não entendo bem o porquê. Sempre pareci são, nos meus dias de juventude. Me sinto velho, por ter medos tão incomuns e tão ridículos. A água abaixo de mim é mais assustadora que os animais, porém, medos irracionais são inexplicáveis. Talvez eu tenha tido trauma, na infância, mas, nunca saberei. Eu sinto dizer que o rato era grande e marrom. Ouvi dizer que são os menos perigosos. Tem menos pulgas, dizem os rumores. Ainda bem , então. Eu não sei como viveria com pulgas. Se bem que meu cabelo há tanto já se foi, que o couro está começando a esquentar. A loucura tange o possível, de modo criativo. As cores se distorcem e meu futuro parece incerto. Cada criatura parece um monstro, com várias patas, chifres e garras. Tenho muito medo do que possa acontecer mas, nada digo, pois se o fizer, tachado de louco irei ser. O artista vê meu grito e sorri. Não o entendo, parece algum tipo de maluco. Eu acho que ele está com alguma epifania. Entenda, caro leitor, que a vida parece mágica aos olhos de todo bom artista. Eu não entendo bem como isso acontece mas, sei que é possível. Transformação de algo grotesco em arte, é uma tarefa primordial. Meu grito pareceu estranho à multidão. O artista amou. Eu não sei como ele fez isso mas, ganhou meu respeito. Transformação improvável de expressão em expressão. Ele fez o que viu, aos próprios olhos.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Um almoço, uma vida

        Ah, como a gorda é voraz. Uma delícia de assistir. Uma imagem maravilhosa. Ah, como a gorda é linda. Sinto-me apaixonado por ela. Sinto como se o mundo fosse ali. A gorda sempre é a última cliente. Sempre está em ótimo humor. A gorda, aquela no canto do restaurante, observa o cardápio como uma criança que acaba de comprar um livro novo.

Minhas [des]ocupações mais valorosas...