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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A redenção do pervertido

Nunca sofri de um mal que não pudesse controlar. Gripe, infecção intestinal, câncer. Alguns males são maiores que outros. Alguns infinitos são menores que uma porção inteira. E alguns amores não servem pra nada na nossa vida.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

De graça, até injeção na testa

Se eu soubesse que minha vida seria assim, talvez eu nunca tivesse parado pra nascer. Foi uma coisa meio de repente que cresceu, como uma bola de neve. Se eu soubesse tudo o que ia encarar, teria pensado pelo menos uma vez, duas vezes, antes de aceitar. Essa proposta é indecente. Uma vida. Tudo o que ela dá, ela tira. Você nasce bonito, fofo e pronto pra aprender. Mas, no momento que você cresce, fica mais bonito, sensual e atrai olhares indiscriminados. A idade vem e você vai ficando sexy. A experiência torna cada relação mais forte e pessoal. Chega um ponto que você fica expert em driblar bolas. Mas, chega também o ponto em que você começa a esquecer. A memória recente se vai como se nunca tivesse vindo. A memória antiga passa a ser a recente, como se você nunca tivesse saído dos seus anos dourados. Seus amigos, que você tanto prezava, já estão mortos. Você os procura, incessantemente, sem saber para onde se foram. É uma surpresa maior ainda quando você encontra os que estão vivos, mas não se reconhecem porque ambos são recentes demais. Mas, eu nem falei da aparência. Quando chega nesse ponto, onde a memória é um simples sopro de vitalidade, a aparência já não importa mais. Todas as fibras do corpo perdem o vigor. Elas passam a ser meras tiras de couro por todo o corpo. Então, invariavelmente, tudo cai. Os peitos, o excesso de pele nos braços, a barriga etc. Tudo passa a ter uma consistência diferente, mole. Os cabelos, antes cheios de cor e volume, passam a ser um gasto desnecessário de energia. Seu corpo abandona, na esperança que dure um pouco mais. O que ele não percebe é que nada mais importa. O corpo não perdura e a mente dedura. A morte iminente se aproxima, devagar e suave. Quando você sabe que vai morrer quer duas coisas. Quer que se lembrem de você com carinho, mas também deseja que não lamentem sua vida; você viveu bem. Foi com simplicidade e seriedade que passou os seus dias. Ninguém sabe o que vem depois. Essa é a grande curiosidade dos idosos. Já passaram por tantos meandros que conhecem a existência como a palma das próprias mãos. Sendo assim, só têm mais um caminho a percorrer: a última jornada. O santo sepulcro para todas as almas: o pós-vida. É, se eu soubesse que ia ter que passar por tudo isso, talvez eu não tivesse aceitado. Felizmente, a vida é uma surpresa tão grande que me diverte saber que tudo vem de bom grado. A experiência nos ensina a aceitar tudo o que vem de mau gosto. Não podemos negar nada. Afinal, cavalo dado não se olham os dentes.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Desapego

Engraçado é o mínimo que se pode dizer sobre a vida. Engraçadas também são nossas paixões. O ser humano é um bicho esquisito e nojento. Mas, o que é pior: a visão que temos das coisas. Enquanto estamos apaixonados, acreditamos que o objeto é o mais lindo do mundo. Enquanto estamos inebriados com isto, não conseguimos nem ouvir direito. Até o mais agudo dos bocejos consegue parecer uma ópera inteira. A verdade é que mais engraçada ainda é a superação. Quando isso acontece, a gente já não consegue olhar pra cara da pessoa sem nojo. A voz, então? Parece um bando de gatos sendo esfolados. Realmente, a mente humana mascara muita coisa. Principalmente se tiver interesse nisso. É o que eu gosto de chamar de "tornar a transação mais fácil". Se isso não acontecesse, estaríamos presos a pessoas por quem sentimos náuseas. É verdade. Eu agradeço, então, ao meu cérebro por tudo o que me fez passar. Porque se eu a visse como é, talvez não teria sentido tal maravilhoso sentimento. A mais pura verdade: "o cérebro engana pra ajudar". Citando meu amigo de infância, Tom Zé: "eu to te confundindo pra tentar te esclarecer"; posso perceber que meu cérebro, amigo leal, não fez mais que sua obrigação. Hoje, sim, eu entendo que não existe amor sem um pouco de mentira e enganação. Se existissem, talvez a humanidade nunca tivesse se reproduzido a esse ponto.
Viva e deixe morrer

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O sebista

   A vida, como um todo, é engraçada. Trágicas mesmo, são as ocupações. A vida do sebista é tragicômica. Para ele, é trágica em quase todos os aspectos; cômica, porém, para quase todos os outros. Às vezes, eu acho que se eu não tivesse alguma história de vida, choraria todos os dias com as desgraças que me acontecem. Felizmente, dia após dia, eu aprendo a rir.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A herança

Eram três. As irmãs possuíam nada em comum além da linhagem. Eram Maria, Teresa e Elisa. Uma católica, outra evangélica e, ainda, uma espírita, respectivamente. Não se viam há trinta anos. Até então, uma desavença familiar as havia separado, sem maiores discussões. Depois da morte dos pais, a briga pela herança fragilizou ainda mais os laços familiares. Suas vidas prosseguiram como se nunca tivessem se conhecido. Elisa, a primeira, teve dois filhos, Rita e Tiago. Maria, a segunda, teve três, Samuel, Rafael e Gabriel, trigêmeos. Teresa, porém, não podia ter filhos. Amargurada, se tornou uma devota ferrenha, onde nada lhe dava mais consolo que Deus. "Só Ele sabe de todas as coisas", ela repetia para si mesma, todos os dias, ao acordar.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Os primos

Lavo meu rosto, pela manhã, todos os dias, antes de sair para fazer minhas refeições. Hoje, foi um dia diferente de todos os outros. Olhei-me naquele espelho e concluí o que temia mais. Estou envelhecendo. O tempo passa para todos, inclusive para mim. Que saudade da infância, que já não volta mais, quando eu brincava com todos os meus irmãos e irmãs. Estão mortos, sim. Não sei como aconteceu. Só foi. De repente, assim. Um passe de mágica. Apanhei meus óculos e pus no bolso. Não precisava deles para nada a não ser aquilo que me estava perto. Sim, o último sinal da idade, não é mesmo? Então, coloquei meu casaco e saí. O dia estava frio, como se fosse inverno, mas era só o outono que batia à nossa porta. Eu e meu marido vivemos sozinhos, sem crianças. Sempre pensamos em adotar, mas ela seria vista com maus olhos e decidimos que lá nunca seria um bom lugar, pelo menos não em nossa época, para criar uma criança. Veja bem, é que não somos casados. É ilegal que dois homens o façam. Mas, vivemos juntos, sim. O nosso pretexto é que somos primos. Mas, tenho certeza que muitos percebem que somos amigáveis demais. Dois homens adultos, um loiro e outro moreno, habitando o mesmo teto, e andando de mãos dadas. Ou são homossexuais ou, simplesmente, pecadores incestuosos.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Beleza colorida

   A Beleza é o sinal que toca em nossa cabeça para nos sentirmos atraídos pelas outras pessoas. Ela é algo subjetivo e, ao mesmo tempo, pessoal e impessoal. Essa contradição faz referência, respectivamente, ao indivíduo e à sociedade. Faz-se necessário, então, a diferenciação.
   Uma vem do âmago, intrínseca ao amor pelas características. Nesta, pode-se dizer que a atração parte de coro para coro, enquanto o "externo" é deixado de lado. Assim, é algo mais duradouro.
   A outra, porém, vem de fora. O senso comum, por assim dizer. Um padrão nitidamente montado pela elite. Assim, é fortemente difundido com sentido de virar "o ideal". A paixão por este modelo consegue ser expressa pela uniformização dos humores da população consumidora.
   Cabelos, pele e olhos claros são um padrão. Este, em sumo, não é bonito nem feio. Não é grotesco nem charmoso. É, por assim dizer, apenas um conjunto de características a uma etnia europeia. Esta, na verdade, dominou por tanto tempo que, embora houvessem nobres mentes tentando evitar, conseguiu se tornar o padrão clássico de beleza.
   O Brasil, país de maior diversidade étnica do mundo, não se abstém de população consumidora deste mero pilar. Ainda que as mulheres sejam consideradas as mais bonitas do mundo, devido carregar em seu código genético apenas o melhor de todas as linhagens do mundo, ainda não conseguem se libertar do estigma de não serem europeias. Esta condição desesperadora, nas jovens mentes, se mantém desde o Brasil colônia.
   "Lá", há tantas eras, a mulher europeia era a dona da escrava negra africana, indígena ou, muitas vezes, uma mistura das três etnias distintas. Então, mesmo depois da Abolição da escravatura, as mulheres socialmente marginalizadas viam que as senhoras brancas ainda continuavam com seu devido poder. Então, o ideal se manteve.
  Todavia, durante a Segunda Grande Guerra, quando os soldados americanos chegaram, ficaram aportados em Natal. Lá, criou-se um costume bastante difundido pela população: o ato de pintar os cabelos de loiros. As mulheres gostavam de se parecer com as mulheres americanas. Era todo um conceito de "mulher-ideal" que se implantava nas pequenas mentes femininas.
   Todavia, as mais religiosas diziam que este hábito era deveras pecaminoso e restrito apenas às prostitutas. Então, com a liberação sexual do final do século XX, a população já estava mais loira que o de costume. E os cabelos, muitas vezes cacheados (ou, até mesmo, crespos), estavam lisos.
   Hoje em dia, andar nu, loiro (nem tanto, hoje em dia) e com cabelos lisos (tendência em decadência), é uma moda incrivelmente aceita. Então, o que é a beleza senão uma simples união de diversas dominações sociais da burguesia acerca do proletariado?

quarta-feira, 15 de maio de 2013

o Meu gato

Chamam-me de louco, os homens que tem esposa e filhos. Então, os chamo, eu. Não sou tal coisa mas, sim, um prodígio. De muitos, fui o único a perceber o embargo causado por tal fardo. Não entenda como uma ofensa, claro. Estou feliz de estar aqui e infinitamente melhor de perceber que também está aqui, Leitor. Percebi, apenas, que (na vida) há grandiosidades inimagináveis. Minha carne clama a descoberta do novo, e a curiosidade apoia, tendo em vista que é algo simplesmente inovador. Polêmico, eu sei que sou. Todavia, famoso, sei que não o sou. Não entendo o porquê, então, do pensamento crítico, inerente à minha pessoa, ser tão diferente. Sou apenas um pária. Aquele que ninguém mais ouve, devido exclusão social. É escasso, o meu direito de vida. E acho bastante egoísmo ter um alguém para privar dos prazeres que não tive. Se meus pais estiverem lendo isso, saibam que agradeço infinitamente por todos os anos que fui detido ao seu lado. Entretanto, venhamos e convenhamos, a Vida é mais do que eu sonhei. Agora, tenho chance de aproveitá-la, pouco a pouco. Os filhos, então, estão fora de questão. Me perdoe a rima, mas saiu sem querer, uma palavra cantada, assobiada, nada mal intencionada. O lirismo da Vida cresce de tal forma que o gato que aqui pousou, me deu um susto.

terça-feira, 23 de abril de 2013

De longe

Hoje, eu quis brincar de ter ciúme. Não deu certo. Senti-me mal. E o pior de tudo, não adiantou. Senti-me vazio. Enquanto sua beleza irradiava nos raios de sol, seu cheiro se espalhava pelo ambiente. Se misturava ao dele, em meio minhas náuseas. Meu odor era pútrido, semi-morto. E sua alma se expandia, tocando na minha e se retraindo, como ondas do mar. Ela ainda estava abraçada a ele. E eu, bobo todo, estava com raiva. De que me adiantou? Ciúme que é ciúme, vem do âmago. É um medo de perder, irracional. Pergunto-me agora, como poderia eu perder aquilo que não é meu? Ela sabe, será? Dedico-lhe meu amor por meio desta carta, sem nome e sem som. O grito vem do centro para fora, de uma maneira rápida e concisa. Seu nome ecoa em minha mente, como gritos de um desesperado. Eu acredito em demônios e anjos. Não o contrário. Acredito primeiramente em demônios, depois em anjos. O mal existe nos olhos de quem vê. Ele pode ser só amigo dela, é verdade, mas eu sinto que ele está ali para me desestabilizar. Os anjos são criaturas dóceis, feitos para ajudar os seres humanos a encontrar o caminho do deus benevolente. Não deu certo. Imaginei tudo que havia de ruim. Me peguei cantando "Por que você não olha pra mim? Me diz o que é que eu tenho demais". Então, me vi sozinho. Enquanto todas as pessoas estavam ali, se divertindo e conversando, ela estava lá, com ele. Ela não ousava olhar para mim. E eu não ousava desviar meus olhos dela. Sua beleza me desnorteava. Mas, ele não percebia isso. Ele não era inteligente. Era um idiota com uma bela fantasia. Seu espírito me enoja. Cada lágrima gasta com ela, meu corpo produz outra, irmã, para me entristecer. Meu corpo já não aguenta mais. E, de repente, desmorono. Meu corpo já não sabe mais o que fazer. Meu coração, antes batendo rápido, para de súbito. Ninguém me percebe. Caio sentado. E, sem mais nem menos, tudo fica branco. Tudo parece ficar mais gelado. E me aparece um anjo. E, de repente, o corpo fica quente. E, rígido, sinto meu corpo cair por uma fenda. O anjo se torna um demônio e, assim, me carrega nos braços. O destino é o inferno. Mas, eu sinto algo estranho. Sinto que nada mudou. No inferno, eu já estava, e fazia tempo demais.
E, então, fez-se uma omelete, com meu coração, quebrado e abandonado...

terça-feira, 16 de abril de 2013

Carta sem nome, borrada de lágrimas...


   O passado liberta. O passado prende. Tudo depende de como você faz uso dele. Não tenha medo de falar. Não tenha medo de se expressar, não importa o que haja. A voz é aquilo que possuímos de mais precioso. A palavra, contraposta às notas musicais, pode expressar exatamente o que se sente. A música, enquanto matemática viva, pode dar uma ideia. Porém, nada é absoluto. Infelizmente, sofro comigo mesmo, me olhando e vendo que não sou quem queria ser. Nascer não foi uma alternativa, entretanto, como não pedi para fazê-lo, me sinto no direito de reclamar.

segunda-feira, 25 de março de 2013

O cronista

   Em uma linha, tento escrever minha vida. Suaves versos de uma prosa delicada. Mas, acaba ficando maior do que eu imaginava. Mas, também fica menor do que eu queria. Uma crônica dos meus dias, presa às letras, sendo descrita como se não houvesse nada melhor. Mas, há; o problema é que eu não sei como descrever. Acho que não interessaria.

segunda-feira, 11 de março de 2013

"Você precisa melhorar"

   Os seres humanos tem um problema. São crueis demais. As palavras mais suaves podem ser as mais perigosas, dependendo de como são ditas. Carinho é essencial. Mentiras podem ser bons caminhos a se tomar, não acha? Eu penso que sim.
   "Você precisa melhorar", ela me disse, como se eu fosse a pior pessoa do mundo. Eu a fiquei encarando e decidi que não valia a pena. Tudo que pratiquei, posto a prova, naquele instante. Eu amaria dar um soco na cara dela, mas decidi que a vida valia a pena demais. Não ia estragar minha paciência por isso. Ah, que se dane.
   Dei o soco.
   "Por que você fez isso?", ela me perguntou, sentada no chão, com o nariz escorrendo sangue. E eu respondi, calmamente, como se nada tivesse acontecido: "porque eu quis, uai; precisa de mais o quê?" E ela me encarou, como se não estivesse acreditando no que estava acontecendo. Tudo foi rápido demais a partir dali. Minha mão, antes em fogo, agora estava quente e dolorida. Eu não conseguia mexer os dedos.
   A próxima coisa que eu me lembro é de estar sentado na sala da coordenadora. Ela era baixa, mas inspirava medo. Sua presença já era mero caso de chamar a mãe. Seu sorriso havia desaparecido no instante que eu e Camila entramos pela porta. O pingo de gente perguntou o que teria acontecido; Camila, na mesma hora, respondeu que não havia sido nada demais. Mas, nos entreolhamos como se estivéssemos escondendo um mapa do tesouro. Ela perguntou, mais uma vez, só que para mim. E eu respondi, com clareza:
   "Eu não fiz nada demais. Eu estava cuidando da minha vida, sentado na sala, quando ela chegou. Ela abriu meu caderno, tirou um dos meus textos e, contra minha vontade (e apesar dos meus esforços), ela leu e começou a debochar. Ela me disse, mais de uma vez: 'você precisa melhorar, sério mesmo'. Eu tentei, calmamente, pegar o meu texto, mas ela não me devolvia. Ela parecia estar se divertindo especialmente com as pessoas que se juntavam ao nosso redor para ver o que acontecia. Ela decidiu, então, ler em voz alta. Eu fui me sentar. Tentei me acalmar. Mas, o fogo era forte demais. Esperei que ela terminasse. Todavia, quando ela me disse, mais uma vez aquelas... palavras indesejáveis... eu a odiei mais que tudo no mundo. E, então, dei o soco. Foi só isso que aconteceu. Nem mais, nem menos. Nem fede, nem cheira."
   O pingo de gente ouviu atentamente o que estava acontecendo e, para não me dar razão, me suspendeu (apenas na prática, pois ninguém além dela mesma ficou sabendo disso). A menina foi suspensa, de verdade. Ficou três dias em casa e, quando voltou, estava mais bronzeada que nunca. Até o cabelo estava mais claro.
   Realmente, seres humanos podem ser crueis. Mas, cada um ganha o que merece. Eu acredito que ela ainda vai apanhar muito na vida. Porém, por enquanto, deixe-a ser uma rainha. Porque cada trono cai em areia e sal, corroído pelo tempo e, algum dia, eu também serei rei. E quando o for, aproveitarei cada segundo.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Jessie's Girl

   Às vezes, eu queria entender o propósito de algumas coisas. Elas vem e vão, de repente, sem muito a dizer. Surpreendem e assustam. Mas, acho que isso não é nada além do normal. O triste é que quando você quer mudar o normal, não dá certo. Penso que isso, de vez em quando, tira minha sanidade. Mas, eu não deveria deixá-lo fazer. É algo que possuo de precioso, penso. Mas, creio que eu deva me divertir com aquilo que me é contrário. Sei lá. Experimentar coisas novas, sempre. Nunca machucou ninguém. Tá, pode até ser verdade com drogas, mas não com muitas outras coisas.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Reconstruindo Cinderella, no mundo moderno, onde todos somos pobres, infelizmente...

Preto no branco, senti-me em um filme. Minha mente não soube interpretar isso como foi, então criou uma distração, para dar um toque de glamour. Com meus bigodes aparados e barba feita, vi a jovem senhora pela primeira vez no baile de máscaras. Senti-me atraído imediatamente. Fi-la vir até mim e dançarmos. O fizemos por toda a noite. Valsa, tango, foxtrot. E, no fim da noite, quando me cansei de ver apenas seus olhos e sentir seus doces lábios nos meus, lhe pedi que tirasse a máscara. E quando o fez, vi a mais bela mulher que já havia aparecido neste mundo. Sua pele era mais macia que pêssegos e seus olhos eram grandes, como duas lanternas; meus faróis de segurança. Apaixonei-me perdidamente, naquele momento. Não descobri seu nome, pois ela teve que sair. Correu tanto que perdeu sua bolsa. Eu não pensei duas vezes e a peguei, com o intuito de identificar a jovem moça. Para meu grande desprazer, não havia dados significativos dela. Apenas maquiagem. Comuns eram as moças que usavam maquiagem; difícil mesmo era encontrar uma que andasse "ao natural". Voltei para casa e não dormi, pensando na jovem donzela. No dia seguinte, cochilei por cinco minutos antes que minha mãe me acordasse e me mandasse tomar café e ir trabalhar. Era bom demais para ser verdade. Eu me deixei ficar acordado e não pensei no dia seguinte. Há certas consequências que não surgem quando se está apaixonado. Eu trabalho no salão em que houve a festa. Sou faxineiro lá. Sei que não é um trabalho glamouroso, mas paga suficientemente bem para sustentar minha mãe, meu padrasto e irmãs pequenas. O "infante" (meu padrasto inútil, que "tem alta posição, mas não serve pra muita coisa") não trabalha; sofre da coluna. Infelizmente, ele não pode trabalhar nem em escritórios, como secretário. Chegando lá, eu ia arrumar o salão com o resto da equipe a qual sou chefe. Vi a tal donzela, sentada na escada, desconsolada e sem maquiagem. Eu não acreditei quando a vi ali. Ela devia ser nova no trabalho. Fui até ela, com sua bolsa, e perguntei apenas: "senhora, é sua?" Ela assentiu com um sorriso, me abraçando e beijando. Realmente, foi uma noite memorável, então, para ambos de nós. Chamei-a para sair e ela aceitou. Levamos o namoro a outro nível quando, ontem, a pedi em casamento e ela aceitou. Seremos felizes, assim espero.

Da tormenta à calmaria

Sentado nesta cadeira, penso em tudo que aconteceu. Minha vida sempre foi agitada, cheia de festas e bebedeiras, mas em algum ponto ela mudou drasticamente. Os sonhos que antes eu tinha e tentava afogar, desapareceram completamente. Não vi mais necessidade de ter tantos blecautes mais. Participei do AA. Vi que era necessário, assim como todos os outros da minha intervencão familiar. As crianças falaram primeiro. Pediram-me perdão por tudo que fizeram de errado, mas apontaram todos os meus erros. Falou então minha mãe, aquela que sempre tomou conta de mim. Pediu-me perdão por tanto ter errado comigo. Abandonou-me ao nascer, nos braços do meu pai. Depressão pós-parto não é algo incomum. Dez anos depois, apareceu com a cor do cabelo mudada, fumando e, também, no AA. Minha esposa falou então, tudo o que pensava. Não me pediu perdão, pois não era necessário; não sentia vontade, e eu concordava. Que mulher esplendorosa eu havia arrumado para mim! Eu senti-me envergonhado e triste. Meu pai havia morrido há alguns anos, de câncer no fígado. Ele bebeu até a morte. Nunca se recuperou do abandono de minha mãe. Casou-se várias vezes mais com mulheres que tomaram todo o seu dinheiro. Minha mãe, então, que não conseguia parar de fumar, me tomou aos braços e revelou que só havia voltado por mim; ela nunca havia amado meu pai de verdade. Fora um casamento arranjado pelas duas famílias, para fundir os negócios. Algo que funcionou bem, na verdade, até que ela nos abandonou e foi deserdada, deixando tudo para mim, sob o controle do meu pai. Ele, como eu já disse, acabou com nosso dinheiro. Eu sempre tentei seguir seus passos, de garanhão inveterado, mas sempre senti que não era meu lugar. Casei-me e tentei estabelecer família, mas não consegui. Não me sentia feliz, tampouco realizado. Agora, sentado nesta mesa, sóbrio há dois anos, eu e minha família agradecemos sempre ao método de doze passos, que eu ainda sigo, por hoje e para sempre!

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Carta ao sax

Outro dia, quando estávamos a passar, eu e o senhor meu marido, observamos um sem-teto tocar o saxofone. E que instrumento magnífico ele tocava. Senti-me uma princesa, sendo cortejada. O senhor meu marido não tardou e chamou-me a dançar. Conforme bailávamos, e todos os outros nos observavam, revi todos os nossos momentos juntos. Não bem entendi na hora, mas o coração pulsou devagar. Enrubesci as partes altas e baixas, temo dizer. O espírito se inquietou e começou uma frenética maratona. Após o término da música, dei-lhe alguns trocados e agradeci, firmemente. Outros também agradeceram, não somente ao saxofonista, mas à mim e meu marido, pelo show. Decidi tomar aulas de dança. Meu marido não suportou a ideia, sinto dizer, mas aceitou. Logo estávamos dançando como marido e mulher, realmente, devem dançar. Nos tornamos os melhores da turma. Sempre me lembrava do show de saxofone que era dado, todos os dias, naquela mesma praça. O senhor não era de todo mal. Vestia-se mal, era feio e sujo. Seu nariz era vermelho, indiferentemente de muitos outros beberrões da região. Sua pele era bronzeada, de um tom acastanhado, muito bonita. A barba pendia, longa, do rosto robusto e redondo. Ele fedia, mas não era sua culpa. Nunca mais havia passado por aquela praça com meu marido. Ele andava demasiado ocupado e sem tempo para mim. Decidi não mais passar por ali, até que meu marido me convidou; o que, eventualmente, aconteceu. Fomos e dançamos, várias vezes mais. As gorjetas continuavam frequentes e suficientes para pagar a dose diária de cachaça. No final, agradeço ao saxofonista, pela chama que se acendeu, após tempo demais apagada!

Minhas [des]ocupações mais valorosas...