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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Lapsos de um dia dos mortos (ex-amantes)

Entorpecido por cada gole, me fiz homem na hora em que a beijei nos lábios. Do mais doce mel, não senti nada de arrependimento. Já sentira isso antes. Foi com tal graça que beijei teus seios, mas não senti nada além de excitação. Toquei na tua vulva com meus dedos e, no vaivém, me senti mais homem que nunca. Mas isso não durou.
Olhei para o lado e não vi mais ninguém. Estávamos sozinhos ali, naquele momento. Éramos só eu e ela. Mas eu não me sentia capaz. Enrijecido, pensei em colocá-la de quatro, naquele momento, mas não me foi permitido. Ficamos só naquilo. Beijos, abraços e movimentos tão frenéticos que acordaram fibras de mim que eu não sabia que existiam.
Mas eu já sabia qual era seu gosto, suas procedências, seus gostos e limites. Não era nada de novo. Não era o que eu queria. Era o que eu tinha disponível numa mente entorpecida, ébria, tomada pelo sabor transparente de uma água intoxicada. Eu não era eu mesmo. Eu me sentia tomado pelos hormônios que me acordavam de um sono que, há muito, me fazia hibernar. Eu me sentia desperto, mas nada alerta. O cérebro que eu tanto sentia orgulho não me serviu de nada e caí, mais uma vez, em garras que me prenderam até o sol raiar.
Nessa noite, eu me vi preso em partes de mim que não eram meu eu normativo. Estou confuso. Existem lapsos em minha memória. Mas sei que não consigo mais me olhar no espelho sem lembrar que traí cada convicção do meu corpo. Momentaneamente, fui um homem feliz.
Confuso, acordei no dia seguinte vendo-a deitada ao meu lado. Encurralado, me senti preso e abismado. Perguntei-me o que poderia fazer, mas nenhuma resposta me foi conclusa. Ainda hoje não sei o que aconteceu. Ainda não sei o que poderia ter feito. E ainda me culpo por ter caminhado ultrapassando os limites anteriormente impostos. Mas nada me deixa mais triste do que lembrar que tudo poderia ter sido melhor se eu não a tivesse encontrado, naquele estado.
Mas foi ela quem me provocou, me puxou para um canto, fez de mim o homem que sou e se divertiu com o que se passou. Não sei o que fazer, nem se posso reclamar. Sou humano e ainda posso errar. Aquilo foi tortura e, mesmo assim, não tem nome. Hoje, sinto só desprezo. Não consegui olha-la nos olhos e sentir qualquer coisa a não ser esse arrependimento.
A agressividade com que escrevo essas palavras não tem sentido. Ela tentou me colocar contra a parede, crucificar-me pelos meus pecados. Mas não fui eu que menti descaradamente. Não fui eu que enganei para tentar ficar por cima. Não fui eu que mentiu sobre sua aparência para tentar diminui-la. Eu que sofri com todas essas coisas. É engraçado como sempre lidei com ela tal qual uma vítima quando, na verdade, fui eu que sofri de mentiras contadas sem qualquer propósito.
Magoei-me pelo que me foi dito diretamente quando, tempos antes, magoei pelo que foi dito pelos outros. As fofocas podem acabar qualquer coisa e, com certeza, elas teriam sido melhores do que qualquer mentira que eu possa ter ouvido desses lábios finos, nesse rosto redondo, nesse corpo voluptuoso.
O teu seio já não me faz falta, tua vulva, também não. Assim como ao teu lábio, quero distância dessa mente doentia que insiste em me aparecer na lembrança, em forma de nostalgia. Sempre que eu te vir, procurarei evitar. Pois não sou obrigado a sofrer em teu nome, quimera dos meus pesadelos últimos.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Bloqueio sem nome

Nesta folha, o branco me desperta visões de tudo aquilo que eu poderia vir a escrever. Mas acontece que eu não consigo. Conforme eu penso em mais coisas, mais ideias, não consigo descrever em palavras todo o conteúdo imagético. Minha imaginação desperta, cada vez mais, com cada referência, lida, vista ou ouvida. Meu coração acelera com esse tipo de coisa, mas toda vez que coloco a caneta no papel, esqueço completamente de tudo o que eu estava pensando. Talvez seja um bloqueio, mas eu sinto que perdi a vontade de escrever. Todas aquelas coisas que eu pensava, sonhava ou só imaginava, se apagam no meu raciocínio. O fio perde a meada e eu esqueço aonde estou, para onde ir e de onde vim. Logicamente, então, esqueço do meu espaço imediato. Mas e quando estou? Esta pergunta, levemente capciosa, diz exatamente o que eu quero. Eu me sinto perdido numa linha do tempo, onde sinto que perdi tempo demais fazendo coisas de menos. E ainda mais, sinto como se não houvesse tempo suficiente. Então, a conclusão mais simples: estou morrendo, cada vez mais, e não fiz nada para aproveitar; sendo assim, vou mais fundo nessa linha de raciocínio e alego que eu poderia partir logo ou mudar meu estilo de vida e fazer mais nesse curto período de tempo que eu jamais fiz. Mas a verdade é que isso tudo é mentira. Tudo é. Me disseram que a verdade é outra coisa. A verdade é aquilo que existe. Mas e se eu me apaixono? Isso é a verdade? Não é meu corpo querendo outra coisa? Não vou me demorar acerca desses assuntos. Desisti desse tipo de coisa. A solidão, aquela velha amiga, me parece bem mais agradável. Ela me procura mais que qualquer outra coisa, ou pessoa. Eu não saberia dizer nada acerca disso. É uma consequência natural da vida. Assim como a morte. Então, por que tanto medo? Não é medo da morte. Sei que ela é certa e vem. O medo é que ela venha cedo demais. Que eu não possa fazer nada agora e nada depois. O tempo me ensinou muitas coisas. E a mais importante delas é aceitar. Acatar tudo o que me é dado. E seguir em frente. Prestar atenção na sutileza das coisas e procurar presentes ocultos. Podemos escapar de qualquer situação se prestarmos atenção nos pormenores. Eles definem a história. Basta prestar atenção e ler os sinais. Aprender que todo homem é uma ilha: nasce e morre só; mas que ninguém precisa viver sozinho. Afinal, o movimento de placas tectônicas é suficiente para movimentar as ilhas em qualquer direção, com relação aos continentes. Basta um intermédio. Cada um é responsável pelo seu próprio movimento no universo. As leis regentes abrigam os fantasmas das nossas decisões. E elas habitam nos cantos escuros do nosso interior e buscam massacrar nosso Ego. Para que possamos alegar, sempre, que não somos responsáveis e, sim, algo mais independente que nós. Que ele é o produto do meio inserido. E que, sem controle, ele pode fazer muito mais.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Distâncias imaginárias

Ele não tinha nome, mas ninguém tinha. Ninguém mais sabia de nada. O conhecimento humano já não era mais nada além de uma sombra. O menino não tinha idade. Não sabia os números. Sentava sozinho e era como ficava o dia todo, todos os dias.

Dormia de olhos abertos. Acordava sem perceber que havia dormido. E, nas olheiras, denunciava um sono muito maior do que o que sentia. Dentro de si, carregava mais lembranças do que gostaria de dizer. Mas não dizia nada. Tinha medo de fechar os olhos, de falar, do que poderia escapar.

Era levado, cada vez mais, ao Distante. Um mundo sem cor, transparente, bioluminescente. Lá, era assombrado por todo tipo de monstros. Em noites normais, ele podia se esconder nos livros, mas frequentemente ele era perseguido.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Prosa sem nome número 1

Sobre as mulheres, há pouco que possa ser dito. Não as conheço tanto quanto gostaria. De línguas sujas e palavras feias, conheço tanto quanto. Sou inexperiente. Vivo em descanso, deitado, aproveitando do pouco que conheço. A vida me acontece de maneira simples e desocupada. Eu abro a janela, ouço os pássaros, sinto as brisas do eterno verão nordestino, sinto o sol quente na minha pele. Nem muito, nem pouco. Esperando que a vida aconteça, escrevo sobre meus sonhos, desejos e invenções. Não sou engenheiro, tampouco o poderia. Meu conhecimento de física e mecânica se restringe a saber de sua existência. Me olho no espelho e me reconheço, mas não sei quem sou. A personalidade que eu julgava ter, desaparece mais a cada dia que passa. O egoísmo que tanto carreguei na ponta da língua já escorrega para meu interior. Engulo como o orgulho que, antes, costumava gritar aos quatro ventos. A ânsia é o que sobe, em contrapartida, me mostrando que nem mesmo meu corpo aguenta. O que sou é uma forma tremeluzente e fora de foco. Uma imagem que se assemelha ao que eu costumava ser, mas que se define entre outras palavras, outros pensamentos, outras consciências. Os tabus deixam de sê-lo conforme penso em alternativas para quebra-los. Os costumes não são nada além de lendas. E eu me sinto confiante o suficiente para sair às ruas e gritar meu nome. Este ainda não me abandonou. A essência do que sou se define nele. Quando o digo, penso em tudo aquilo que sou. Não importa se mudei. Meu coro permanece neutro. É humano, afinal. Cheio de instintos animais diversos. Um deles é o de procriar. Sinto em toda minha totalidade. Mas não sinto vontade de estar em uma relação. Relacionamentos são complicados. Entendo muito pouco deles na prática, mas sou mestre em teorias. Quando é você no holofote, tudo muda. Errar é humano. E não há melhor forma de provar isso quanto nesses momentos. Amizades são relacionamentos de união. Você pode se separar quando quiser, apesar de não procurar. Se não funciona, você separa. Ao contrário de relacionamentos amorosos, que são os que você tenta fazer funcionar. Eu não participo deles por esse motivo. Não encontro ninguém que consiga funcionar. Gosto de estar sozinho, me olhar no espelho e me perguntar quem sou, perguntar minhas origens e meus destinos. Escrevo quando sinto que preciso divagar sobre isso. É meu ofício. Não sei fazer outra coisa. As pedras no meu caminho são empecilhos que me machucam quando me corto entre palavras ásperas de auto-crítica. Sou quem preciso ser. Não me arrependo disso. Sou o filho que meus pais sempre quiseram. E, disso, eu me arrependo. Todas as coisas que tenho vontade de fazer passam por um julgamento complicado. Meus pais aprovam ou não. E, a partir daí, minha crítica é similar. Minhas opiniões e convicções são apenas réplicas de modelos ultrapassados do século passado. Às vezes, eu me pergunto o que isso quer dizer. Sou o legado daquilo que uma vez se foi perpetuando-se entre os genes da obediência. Nunca faço o que quero. Só o que esperam de mim. Isso me magoa. Me mata. Me mostra como o sujeito fraco que não sabe o que quer porque depende da opinião alheia para tal.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Alívio ou dor?

Toda história, começa com seu próprio começa, seja um meio, seja um fim. essa, em particular, começa com a morte de um indivíduo. na jornada da vida, o fim foi o que ele menos esperava, embora fosse sua maior certeza.
O sangue em sua camisa secou rápido. hemofílico. o sangue não coagulou. assim, ele morreu de hemorragia. a faca ainda estava lá, em seu abdômen, como um símbolo. a morte vem para todos, mas chegou primeiro para ele.
O sorriso em seu rosto não denunciava os horrores que ele havia presenciado. mostrava apenas que seu último momento havia sido genuíno. provavelmente, nem sabia que a morte o atingira. os olhos fechados diziam isso.
Entre sussurros e sonhos cheios de alegria, ele se foi sem nem ao menos saber como eram os portões. chegou apressado. sem dizer olás ou distribuir simpatias. chegou logo ao seu destino. não quis saber de mais nada. nem precisava. seu paraíso o aguardava.
Na terra, porém, a trama se complicava. enquanto a morte do indivíduo, para ele, resultava na felicidade eterna, outros sofriam. seus pais, sua esposa, seus filhos, seus amigos. todos reagiam de uma forma diferente. cada uma possuía suas características especiais.

quinta-feira, 13 de março de 2014

as cores da vida.

cinza. os prédios se erguem ao passo que o sol se move. um trajeto diário, pessoal e esclarecedor. dia após dia, semana após semana, mês após mês e ano após ano. é em nome do eterno que se dedica tal jornada. entre suspiros e sussurros, tanto fica no papel; as palavras somem em meio tantos sentimentos que se escondem atrás de cores e sonhos. os portais da imaginação discorrem entre mapas e teoremas da ideia humana.
você está no ponto A, segue como um, na linha do tempo, para o ponto B, mas quando chega ao ponto C, você já está transformado em outra faceta de si mesmo. ventos espiralados correm através das árvores e destroem cada membro da natureza composta, a vida que se ergue, a vida que continua, mas aquela que cai, todos os dias, ainda lembrança da jornada dedicada ao eterno.
o tempo vai, mas volta, tão logo os relógios percebem um erro, entre tantos pensamentos. o desejo age como motivador essencial da vida.
a linha da vida é como um agente para sequenciação do tempo. a literatura moderna o define assim, mais ou menos. não há muito a ser dito sobre o assunto. os teóricos apenas o imaginaram, mas as paredes das dimensões que nos esmagam no plano são finas como ar puro. a fumaça que enevoa nossos pensamentos é como um muro, grosso e impenetrável. assim, não podemos nos elevar e fugir.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

sub-instintivo

Sem caminhos, entro nos bosques mais escuros dos dias mais tristes. o sol não aparece mais. ninguém me procura. ninguém me chama. sou esquecido entre tantos. e tantos se esquecem comigo. a cada pássaro, uma melodia. a saudosa vida escapa enquanto a virtude se esconde. mato com cada grito e assassino a cada refeição. a necessidade me espanta, mas não me abandona. a sanidade é uma imperfeição. existe apenas nos sonhos. e estes, há tanto abandonados, me retornam com terror e sanguinolência. os instintos mais selvagens despontam. o animal em mim retorna. e a razão, tão adorada pelos hedonistas, mente para mim. diz-me que o futuro é incompreensível. que ele não existe. o pensamento presente se confunde ao passado. em meio tanta dor e tanto pesar. é uma teia construída de fatos e sentimentos. entre rios de confusão, vejo meu reflexo e me dá um estalo. a vida não segue inútil. entre tantos gritos, rugidos e cânticos, todos os animais possuem certa sintonia. mas não me encaixo entre eles. são como abelhas e formigas. taxonomicamente parecidas até certo nível, mas não se misturam. abandono qualquer traço do meu tempo naquele lugar e sigo corrente acima. numa cidade, consigo ver mais do que matar a fome, a sede e ser refém dos meus hormônios. vejo a real possibilidade de rir, conversar e sentir algum prazer complexo. mas, cada vez mais, os sentimentos retornam. nesse meio, consigo sentir cada experiência acontecendo de novo. cada decepção, cada lágrima indevida. com isso, procuro abandonar a vida. me jogo. do alto. preto. não há mais nada. suspira. inspira. respira. devagar. quase parando. para de piscar, para de respirar, para de viver.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A redenção do pervertido

Nunca sofri de um mal que não pudesse controlar. Gripe, infecção intestinal, câncer. Alguns males são maiores que outros. Alguns infinitos são menores que uma porção inteira. E alguns amores não servem pra nada na nossa vida.

domingo, 12 de janeiro de 2014

A justiça é cega, mas ainda pode te dar uma rasteira

Quando você imagina que nada pode piorar, é quando piora. A vida começa para todo mundo. Para mim, foi aos cinco anos. Foi quando tive consciência das coisas. Não me lembro de nada antes disso. Alguns flashes, provavelmente. Minha mãe, uma mulher negra, trabalhava em uma casa, como empregada doméstica. Meu pai também trabalhava, então não tinha condições de cuidar de mim, em casa.Eu sempre ia com minha mãe para o trabalho. Lá, tinha uma criança que eu gostava de brincar. Era o filho da dona. Ele era diferente de mim. Eu era tímido e introspectivo. Branco, de olhos e cabelos claros, e rico, claro. Ele era altivo, esperto, falante e muito extrovertido. Em outras palavras, um safado. Ele fazia as coisas erradas e botava a culpa em mim. Sujava o chão, quebrava copos etc. Minha mãe não se importava porque sabia que era ele quem fazia isso tudo.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

"E o vento levou..."

Era uma história que havia começado há tantas luas que ele já não se lembrava. Os nomes foram apagados de sua memória como um pó que é soprado para longe pelo vento. A luz que o dava raciocínio, se apagava depressa. O mar surgia e ia, todos os dias. A maresia o lembrava das memórias que ele detinha, da infância. A juventude lhe fora apagada como uma forma de repressão. Preso em seu próprio mundo, fez-se uma vida.

domingo, 25 de agosto de 2013

A morte de nós dois

Às vezes, eu paro e penso. Como seria minha vida se você morresse? Tudo que me cerca é uma aura de dor. Vendo-lhe aqui deitada, eu vejo que nada mais nos une. Meu peito se inflama com a chama daquilo que me é mais sagrado. Só os deuses sabem como meu amor um dia já foi. Conto as horas pra te ver. Mas, já não é com o mesmo intuito. Nossos encontros se dão com escárnio disfarçado de superação.

domingo, 11 de agosto de 2013

Relatos de cama

Estava em casa assistindo televisão quando me ligou. Corri para atendê-la. Minha esposa estava tocando o violoncelo, no quarto. "Alô", disse com a voz grave, enquanto eu atendia. "Era engano, querida", gritei para que ouvisse. "Você sabe quem é?", disse a voz do telefone. "Não", respondi, com o coração já acelerando. "Sabe, sim; sou eu... Estou no lugar de sempre, te esperando... Você vem?", disse a voz sedutora. Um número X de mulheres apareceu em minha mente. Mas, restringi ao número Y que não me odiava que poderia fazer esta ligação...

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Dois botes

Quis o destino mais uma vez que se encontrassem naquela ponte andando lado a lado. E, nunca antes na história, o destino se fizera cumprir de tal forma tão esplêndida. Veja você onde é que o barco foi desaguar.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Quem conta um ponto, aumenta um morto

Pra falar a verdade, existem poucas coisas que eu faria nessa vida. Sonho com o dia em que poderei ser livre. Mas, enquanto isso não acontece, vou levando a vida devagar. Talvez, quem sabe, o amor não acabe. Mas, a tendência é que isso aconteça, conforme tudo o mais.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Os primos

Lavo meu rosto, pela manhã, todos os dias, antes de sair para fazer minhas refeições. Hoje, foi um dia diferente de todos os outros. Olhei-me naquele espelho e concluí o que temia mais. Estou envelhecendo. O tempo passa para todos, inclusive para mim. Que saudade da infância, que já não volta mais, quando eu brincava com todos os meus irmãos e irmãs. Estão mortos, sim. Não sei como aconteceu. Só foi. De repente, assim. Um passe de mágica. Apanhei meus óculos e pus no bolso. Não precisava deles para nada a não ser aquilo que me estava perto. Sim, o último sinal da idade, não é mesmo? Então, coloquei meu casaco e saí. O dia estava frio, como se fosse inverno, mas era só o outono que batia à nossa porta. Eu e meu marido vivemos sozinhos, sem crianças. Sempre pensamos em adotar, mas ela seria vista com maus olhos e decidimos que lá nunca seria um bom lugar, pelo menos não em nossa época, para criar uma criança. Veja bem, é que não somos casados. É ilegal que dois homens o façam. Mas, vivemos juntos, sim. O nosso pretexto é que somos primos. Mas, tenho certeza que muitos percebem que somos amigáveis demais. Dois homens adultos, um loiro e outro moreno, habitando o mesmo teto, e andando de mãos dadas. Ou são homossexuais ou, simplesmente, pecadores incestuosos.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Três vezes sufocadas

   Os olhos. São sempre os olhos, não é? As pernas se locomovem e os braços servem de utensílios. Mas, e os olhos? São apenas portas da alma. As últimas defesas do corpo humano.
   A cozinha estava vazia acerca de população útil. E a festa acontecia sem perturbações de maior ordem. A polícia não ousaria penetrar. E eu não conseguía me sentir bem comigo mesmo. Eu estava abrindo uma garrafa de vinho quando ela veio falar comigo. Seu sorriso falava alto que ela tinha vontade de se entregar ao primeiro que aparecesse. Por coincidência, este era eu, lembrando que ela acabara de sair do banheiro.
   Seguimos pelo corredor ao que me pareceu duas vidas. Vivi e morri quantas vezes possíveis. E calculei quanto tempo eu teria até que o vinho fizesse efeito. Eu queria me lembrar daquela noite. Mas, tenho certeza que ela não. Chegando lá, despejei o conteúdo em uma longa taça, que ela bebeu furiosamente.
   Vigorosamente, arranquei suas roupas, com meus dentes, e fiz daquela noite uma memorável para ambos. Sua calcinha dizia "Hester", me lembrando de um coelho que eu possuía quando criança. Nostálgico, toquei seu pescoço. Eu podia sentir o sangue pulsando por suas veias.

As mil faces da alma

   Foi numa noite como qualquer outra que eu a vi. Estava se apresentando. Se você quer saber, ela não tinha nada de especial. Nada, além do beijo. Diziam que, mesmo quem não fosse cristão, ao tocar naqueles lábios via o céu. E não era qualquer céu. Era o melhor deles. O paraíso dos sonhos. Mas, um beijo daqueles não era pra qualquer um. Homens e mulheres vinham de longe, para encontra-la.
   A noite seguia tranquila conforme ela se apresentava. O palco era pequeno, sujo e úmido. Todo o local fedia a mofo. E eu não conseguia me controlar. Minha mão estava tremendo, impiedosamente. E eu queria vomitar. Naquele momento, todas as náuseas da vida, voltavam como um cachorro sem dono, à procura de um lar. Mas, eu não conseguia chorar. Fiz uma prece silenciosa para que meu corpo não me deixasse, naquela noite. Contudo, não consegui.
   Quando acordei, estava em uma poça de sangue, num banheiro desconhecido. E, ali, ela estava, "dormindo". Sua alma já não habitava mais nesse mundo. E eu desconhecia as verdadeiras razões. O que teria acontecido? A noite anterior ecoava em minha mente em uma música cantada por ela mesma. "O que eu quero é sossego!"
   Então, me levantei e saí. Era o mesmo banheiro daquela boate asquerosa da noite anterior. Minhas roupas pingavam sangue. E meu rosto, sujo, também. Eu estava com nojo de mim mesmo. Fui para casa e troquei minhas roupas. Pus fogo nas sujas. Ninguém poderia me acusar de nada. Eu queria que ninguém pudesse me incriminar. Mas, acho que isso não seria possível.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

o Meu gato

Chamam-me de louco, os homens que tem esposa e filhos. Então, os chamo, eu. Não sou tal coisa mas, sim, um prodígio. De muitos, fui o único a perceber o embargo causado por tal fardo. Não entenda como uma ofensa, claro. Estou feliz de estar aqui e infinitamente melhor de perceber que também está aqui, Leitor. Percebi, apenas, que (na vida) há grandiosidades inimagináveis. Minha carne clama a descoberta do novo, e a curiosidade apoia, tendo em vista que é algo simplesmente inovador. Polêmico, eu sei que sou. Todavia, famoso, sei que não o sou. Não entendo o porquê, então, do pensamento crítico, inerente à minha pessoa, ser tão diferente. Sou apenas um pária. Aquele que ninguém mais ouve, devido exclusão social. É escasso, o meu direito de vida. E acho bastante egoísmo ter um alguém para privar dos prazeres que não tive. Se meus pais estiverem lendo isso, saibam que agradeço infinitamente por todos os anos que fui detido ao seu lado. Entretanto, venhamos e convenhamos, a Vida é mais do que eu sonhei. Agora, tenho chance de aproveitá-la, pouco a pouco. Os filhos, então, estão fora de questão. Me perdoe a rima, mas saiu sem querer, uma palavra cantada, assobiada, nada mal intencionada. O lirismo da Vida cresce de tal forma que o gato que aqui pousou, me deu um susto.

domingo, 5 de maio de 2013

O teatro dos vampiros

As cortinas se abriram. Vermelhas e pesadas. Duas pessoas se fizeram necessárias para abri-las. Os atores estavam nas cochias. E, assim que as cortinas abriam, as luzes acenderam. Foi posto um foco no centro, onde um homem mais velho chegava, devagar. Ele pronunciava algumas palavras.

Michel Melamed, na minissérie "Dom Casmurro"
"Venho aqui, por intermédio do incentivo cultural, retratar esta pobre realidade. Eu, particularmente, não gosto de teatros. São lugares aterrorizantes. As pessoas são esquecidas no teatro. Os grandes já vivem para o cinema, onde o reconhecimento é pleno e absoluto. No teatro, são eternizados pela efemeridade da obra. E no cinema, são esquecidos pela possibilidade de assistir o mesmo filme. De novo. E de novo. Não estou criticando, veja bem, mas o que eu mais detesto é justo aquilo que me colocou no estrelato. E, agora, uma peça."

terça-feira, 23 de abril de 2013

De longe

Hoje, eu quis brincar de ter ciúme. Não deu certo. Senti-me mal. E o pior de tudo, não adiantou. Senti-me vazio. Enquanto sua beleza irradiava nos raios de sol, seu cheiro se espalhava pelo ambiente. Se misturava ao dele, em meio minhas náuseas. Meu odor era pútrido, semi-morto. E sua alma se expandia, tocando na minha e se retraindo, como ondas do mar. Ela ainda estava abraçada a ele. E eu, bobo todo, estava com raiva. De que me adiantou? Ciúme que é ciúme, vem do âmago. É um medo de perder, irracional. Pergunto-me agora, como poderia eu perder aquilo que não é meu? Ela sabe, será? Dedico-lhe meu amor por meio desta carta, sem nome e sem som. O grito vem do centro para fora, de uma maneira rápida e concisa. Seu nome ecoa em minha mente, como gritos de um desesperado. Eu acredito em demônios e anjos. Não o contrário. Acredito primeiramente em demônios, depois em anjos. O mal existe nos olhos de quem vê. Ele pode ser só amigo dela, é verdade, mas eu sinto que ele está ali para me desestabilizar. Os anjos são criaturas dóceis, feitos para ajudar os seres humanos a encontrar o caminho do deus benevolente. Não deu certo. Imaginei tudo que havia de ruim. Me peguei cantando "Por que você não olha pra mim? Me diz o que é que eu tenho demais". Então, me vi sozinho. Enquanto todas as pessoas estavam ali, se divertindo e conversando, ela estava lá, com ele. Ela não ousava olhar para mim. E eu não ousava desviar meus olhos dela. Sua beleza me desnorteava. Mas, ele não percebia isso. Ele não era inteligente. Era um idiota com uma bela fantasia. Seu espírito me enoja. Cada lágrima gasta com ela, meu corpo produz outra, irmã, para me entristecer. Meu corpo já não aguenta mais. E, de repente, desmorono. Meu corpo já não sabe mais o que fazer. Meu coração, antes batendo rápido, para de súbito. Ninguém me percebe. Caio sentado. E, sem mais nem menos, tudo fica branco. Tudo parece ficar mais gelado. E me aparece um anjo. E, de repente, o corpo fica quente. E, rígido, sinto meu corpo cair por uma fenda. O anjo se torna um demônio e, assim, me carrega nos braços. O destino é o inferno. Mas, eu sinto algo estranho. Sinto que nada mudou. No inferno, eu já estava, e fazia tempo demais.
E, então, fez-se uma omelete, com meu coração, quebrado e abandonado...

Minhas [des]ocupações mais valorosas...